sábado, 8 de outubro de 2016

A PESTE - Uma análise histórica

“Os homens se evitavam [...] parentes se distanciavam, irmão era esquecido por irmão, muitas vezes o marido pela mulher; ah, e o que é pior e difícil de acreditar, pais e mães houve que abandonaram os filhos à sua sorte, sem cuidar deles e visitá-los, como se fossem estranhos...”[i]  (Giovanni Boccaccio, 1352)
1. Apresentação
O presente trabalho tem como objetivo central apresentar uma análise geral sobre uma das enfermidades ainda presentes na sociedade contemporânea, e que por períodos diversos resultou em crises epidêmicas (quiçá uma pandemia durante a Idade Média, se considerarmos a concepção de mundo aos olhos europeus englobando a Europa e partes do continente asiático). A peste bubônica, também conhecida nos tempos medievais como peste negra.
Buscar-se-á construir uma narrativa que associe os fatos históricos com as medidas adotadas para o combate da doença nas mais diversas regiões, dando especial atenção ao Brasil.
 2. Introdução
As crises epidêmicas pelas quais a humanidade já passou tornam-se fatos históricos de tamanha importância que muitos são os filmes, livros e imagens que registram o assunto. Elas mudam a forma como as pessoas encaram a sociedade, a vida. Para lembrarmos de um caso próximo basta mencionarmos a gripe relacionada ao vírus H1N1 (popularmente conhecida como gripe suína). Originada no México, ela fez com que a capital daquele país ficasse com as ruas vazias no período de surto[1] da doença, trazendo inclusive consequências econômicas consideráveis, como o fechamento de companhias aéreas de bandeira mexicana.

Isso porque as pessoas ficaram com medo de contrair a doença. Aqui no Brasil, as aulas nas escolas foram suspensas, e medidas diversas passaram a ser propaladas como elementos de redução e combate à proliferação da doença, tais como o uso do álcool gel.
Na Idade Média muitas foram as crises epidêmicas, e algumas vezes as doenças assumiram o (triste) papel de segregação social. Basta comentarmos a questão da Hanseníase durante a Idade Média.
Popularmente conhecida como lepra, tal enfermidade é infecciosa, sendo de evolução crônica, causada por uma bactéria, o Mycobacterium leprae, microorganismo que acomete principalmente a pele e os nervos das extremidades do corpo. O histórico da doença é bem triste, marcado por eventos de discriminação e isolamento dos enfermos. Eram criados locais onde muitas delas passavam a viver, chamados de leprosários ou gafarias. Quem possuísse a doença deveria andar com objetos de metal pendurados pelo corpo, indicando que estava se aproximando. De fato, um passado triste, de discriminação e isolamento dos doentes, que hoje já não existe e nem se faz necessário, uma vez que a doença pode ser tratada e curada.  
3. A Peste - Um breve histórico
Muitos livros de História dão conta de que os surtos de peste foram trazidos do Oriente com as Cruzadas. Mas vale lembrar que antes das Cruzadas, bem antes, a Europa Medieval era assolada por crises epidêmicas. É fato, no entanto, que o maior surto se iniciou entre os séculos XII e XIV, se estendendo por muitos anos. A forma mais comumente conhecida foi a peste bubônica.
A peste bubônica ficou popularmente conhecida como peste negra. Cerca de um terço da população da Europa morreu em virtude da peste bubônica. Para se ter uma simples ideia, é como se de cada três pessoas que vivessem na época uma tivesse contraído a peste e morrido. Na época, todas as explicações partiam da questão religiosa. Assim, Giovanni Boccaccio (1313 - 1375) buscou justificar a ocorrência da peste como “um justo castigo divino”. E não só ele, mas muitas outras pessoas que viveram no período. Hoje, sabemos, a peste é transmitida pelas pulgas que se alimentam do sangue dos ratos e depois se alimentam do nosso. Elas transmitem uma bactéria que só foi descoberta bem no final do século XIX e recebeu o nome de Yersinia pestis. Muito mais forte do que os soldados medievais, a Yersinia não fazia distinção entre camponeses, senhores feudais e padres. Matou muitas, muitas, pessoas. Como os hábitos de higiene não eram muito comuns no período, as pessoas constantemente carregavam pulgas nas roupas. Assim, uma passava para a outra e, em poucos dias, o camponês, o senhor feudal, o padre apresentavam um quadro febril, seguido de um inchaço nas juntas (os bulbos), marcado por uma cor rubra (um vermelho bem escuro), indicando a necrose, ou seja, o apodrecimento dos tecidos, vasos sanguíneos e carne. Era a peste se manifestando dias após a picada da pulga.
Mas não foi só a peste bubônica que matou na Idade Média. Não! Tivemos a peste pneumônica, muito pior inclusive. A peste pneumônica, acreditam os cientistas, seria decorrente da bubônica, só que transmitida por gotas de saliva. Se a bubônica era transmitida pela picada da pulga, bastava um doente tossir próximo a alguém sem cobrir a boca que a pneumônica se espalhava. E a doença se manifestava com uma força maior.
Fato é que os primeiros registros dão conta de que a peste bubônica chegou à Europa via península Itálica, junto com os mercadores que voltavam do Oriente para abastecer as prósperas cidades italianas. E isso por volta da primeira metade do século XIV.
Conforme alguns pesquisadores e pesquisas, a peste negra é originária das estepes da Mongólia, onde pulgas hospedeiras da bactéria Yersinia pestis infectaram diversos redores que entraram em contato com zonas de habitação humana. Na Ásia, os animais de transporte e as peças de roupa dos comerciantes serviam de abrigo para as pulgas infectadas. Nos veículos marítimos, os ratos eram os principais disseminadores dessa poderosa doença. O intercâmbio comercial entre o Ocidente e o Oriente, reavivado a partir do século XII, graças às Cruzadas e os Renascimentos Comercial e Urbano, explica a chegada da doença na Europa.
 4. A doença e o combate à mesma
Como vimos, o contato humano com a Peste se dá e desenvolve-se principalmente pela mordida de pulgas, que antes se alimentam do sangue dos ratos ou pela transmissão aérea (peste pneumônica).
Em sua variação bubônica, a bactéria cai na corrente sanguínea, atacando o sistema linfático e provocando a morte de diversas células, o que acaba por criar dolorosos inchaços entre as axilas e a virilha. Sequencialmente, e como resultado do quadro relatado, esses inchaços, conhecidos como bubões, se espalham por todo corpo.
Já quando ataca o sistema circulatório, o infectado tem uma expectativa de vida de aproximadamente uma semana, caso não se inicie um imediato tratamento. Além de atacar o sistema linfático, a enfermidade também pode atingir o homem pelas vias aéreas atacando diretamente o sistema respiratório (novamente estamos tratando da peste pneumônica). No caso da peste pneumônica, após o contágio o individuo tinha uma expectativa de vida de, no máximo, dois dias.
A ausência de quaisquer conhecimentos científicos fez surgir medidas profiláticas preconceituosas e ridículas. Movimentos de xenofobia e aversão aos judeus se tornaram comuns no período. Como a população judaica da Europa, bem como do Oriente, adotava medidas de higiene, algo inovador para a época, dificilmente ficavam doentes e morriam. Logo, as populações católicas da Europa passaram a definir que a Peste nada mais seria de que uma maldição trazida pelos judeus. E muitos foram os católicos que passaram a perseguir e matar pessoas judaicas.
Outros afirmavam que as cidades carregavam essa maldição, culpa dos burgueses, que cometiam um dos pecados capitais, segundo a Igreja Católica: a usura. De fato, as cidades eram locais de maior incidência da doença, uma vez que havia um número maior de pessoas por km2. Genial foi Leonardo da Vinci (1452 - 1519), que já no século XV começou a associar a proliferação de doenças nas cidades com a falta de higiene das mesmas. Assim, Leonardo propôs as primeiras obras de saneamento básico, além de passar a adotar medidas de asseio, tais como o uso de um pano umedecido para se limpar ao final dos dias. Fato é que, Leonardo chegou próximo aos setenta anos em uma época em que a expectativa de vida mal chegava aos 40!
Os surtos urbanos duravam cerca de quatro a cinco meses, mas houve cidades que conviveram por décadas com a doença. Depois de matar muitos citadinos, outra crise se instalava. E que também fazia as suas vítimas!
Não havia nenhum tipo de abastecimento, nem pessoas para exercer as mais simples funções. Seja no campo, seja na cidade, a Peste trazia consigo um rastro de catástrofes. Com a morte de muitos camponeses, várias foram as regiões da Europa que ficaram sem produzir absolutamente nada. Sem alimento a situação ficava cada vez pior. Só para se ter uma ideia, muitas foram as regiões que quase viram pequenos reinos e feudos desparecerem porque não havia gente para trabalhar. Um documento histórico mostra claramente isso
“A fim de que meus escritos não pereçam juntamente com o autor, e este trabalho não seja destruído... deixo meu pergaminho para ser continuado, caso algum dos membros da raça de Adão possa sobreviver à morte e queira continuar o trabalho por mim iniciado”[2].
No final do século XIV a Peste matava 200 pessoas por dia em Londres e cerca de 800 em Paris. Sem camponeses, o sistema feudal se enfraquecia. Foram as crises epidêmicas uma das principais causas do fim do feudalismo, sem dúvida.
Diante de tal quadro, até o século XIX, as medidas mais adotadas (porém pouco eficientes) eram criar locais de quarentena para os infectados, impedir a chegada de novas pessoas, circundar e isolar algumas cidades. Mais uma vez, quem nelas estava morreria. Seja pela Peste, seja pelo abandono. Segundo as estimativas até o final da Idade Média, a Peste matou por volta de 75 milhões de pessoas! Indubitavelmente, uma das maiores crises epidêmicas que o mundo já presenciou.
A partir do século XVIII as crises epidêmicas na Europa diminuíram, porém outras áreas do globo já sentiam os seus efeitos. Uma dessas áreas era o Brasil. E, partir da agora esse será o nosso foco: tratar da Peste em solo brasileiro.
5. O Brasil e a Peste
Diversos e importantes artigos científicos, bem como dissertações em áreas da pós-graduação têm sido escritos abordando o tema. E ainda muitas incertezas persistem sobre esse assunto.
Para discorrer sobre o mesmo, será utilizada algumas informações trazidas com a dissertação de mestrado de Matheus Alves Duarte da Silva. O tema central da pesquisa foi a crise epidêmica que assolou a cidade do Rio de Janeiro nos idos de 1900.
No dia 21 de maio de 1900 foi declarada uma epidemia de peste bubônica na então capital do Brasil. Os primeiros casos haviam sido registrados no mês de janeiro, atingindo a população mais pobre da cidade, formada por moradores da zona portuária e trabalhadores de armazéns.
Mas essa não foi a única epidemia do Rio, nem do Brasil. Quase que anuais, entre 1900 e 1904, a doença matou um pouco mais de 1300 cariocas. Assim como no caso da Europa, a doença também chegou trazida do Oriente, desembarcando no Brasil com os ratos que vinham nos navios que aportavam em Santos. A situação começou a assumir proporção tamanha que motivou o governo federal a designar Oswaldo Cruz para "verificar a etiologia da epidemia de Santos junto com Adolpho Lutz e Vital Brazil. Com a confirmação oficial de que se tratava da peste bubônica, as autoridades sanitárias decidiram instituir laboratórios para produção de vacina e soro contra a peste: o Instituto Butantan, em São Paulo, e o Instituto Soroterápico Municipal no Rio de Janeiro, que mais tarde viria a se tornar a Fiocruz"[3].
É interessante analisarmos a enorme importância dada pelo governo para o combate à doença. No entanto, medidas como o combate às pragas urbanas, essa ainda hoje padecem de ações mais efetivas. Isso porque parte significativa do Brasil não possui saneamento básico. E o descarte desordenado de esgoto e lixo doméstico é fator circunstancial para a proliferação de ratos e ratazanas (basta lembrar que essa última espécie, também trazida para o solo americano com as embarcações que vinham da Europa assumiu o papel de vetor da doença).
Em 1903 o governo da prefeitura do Rio de Janeiro estabelecia prêmios para aqueles que matassem ratos e os entregassem ao governo. Ações que obviamente geraram um mercado paralelo. Há registros de pessoas que criavam os animais e depois o matavam. "A imprensa da época não perdeu a piada".
A partir da criação de institutos de pesquisa e de produção de vacina, a doença diminuiu sua manifestação. O Butantan assumiu papel preponderante nesse processo. Mas ainda hoje se registram casos, dentro e fora do Brasil.
O sítio virtual do Ministério da Saúde do Brasil mantém uma pequena nota sobre a doença, e o perigo de proliferação da mesma.
Como dito, fora do Brasil a doença ainda vitima e mutila pessoas. Um recente caso nos EUA provocou uma caçada cinematográfica aos ratos. Um fazendeiro do Estado do Texas foi visitar a irmã em Nova Iorque, mas ao chegar ao destino final foi encaminhado ao hospital. Diagnóstico: peste bubônica. O senhor de idade teve as duas pernas mutiladas.
Em recente matéria da BBC, aparecem dados sobre a ocorrência da peste nos EUA, inclusive com um título bastante provocativo, conforme legenda abaixo.
"Em pleno século 21, EUA convivem com a peste, que matou milhões na Idade Média - Os Estados Unidos levaram o homem à Lua há quase 50 anos, mas americanos ainda morrem de uma doença que arrasou a Europa na Idade Média. Por que isso ocorre?"[4]

Fato é que dados estatísticos dão conta de um crescimento da doença nos EUA. E fortuitamente casos também são registrados em outras nações, inclusive no Brasil.
A peste é de comunicação obrigatória às autoridades. Ainda hoje os indivíduos que apresentam a doença são postos em quarentena. O tratamento com antibióticos revolucionou o combate à doença, sendo que a mesma passou a ser classificada como de certa facilidade de controle e combate.
Tanto no Brasil quanto fora, a notificação é compulsória, precedendo uma obrigatória investigação.

6. Bibliografia
Franco JR., Hilário. O Feudalismo. São Paulo, Brasiliense. (Co. Tudo é História, no. 32).
___________. As Cruzadas. São Paulo, Brasiliense. (Col. Tudo é História, no. 34)
___________. A Idade Média. O nascimento do Ocidente. São Paulo, Brasiliense.
___________ & OLIVEIRA, Ruy de. O império Bizantino, São Paulo. Brasiliense (Col. Tudo é História, no. 107).
História de Portugal/ José Mattoso... [et al]; José Tengarrinha (org.). Bauru, EDUSC.
História do Brasil. Empresa Folha da Manhã e Zero Hora/ RBS Jornal: São Paulo; 1997; 2ª. Edição. 
HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem/ Leo Huberman; tradução de Waltensir Dutra. – 21ª. ed. – Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
Miceli, Paulo. O feudalismo. São Paulo, Atual. (Col. Discutindo a História).
Monteiro, Hamilton M. O feudalismo. Economia e sociedade. São Paulo, Ática. (Série Princípios, no. 39)
Moraes, José Geraldo Vinci de. Caminho das Civilizações: da pré-história aos dias atuais – São Paulo, Atual.




[1] em linhas bem gerais, período onde a doença está se espalhando.
[2] HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem/ Leo Huberman; tradução de Waltensir Dutra. – 21ª. ed. – Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. p. 49
[3]https://agencia.fiocruz.br/historiador-investiga-epidemia-de-peste-no-rio-de-janeiro-em-1900
[4] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151015_peste_eua_tg

domingo, 18 de outubro de 2015

A EXPEDIÇÃO DE MARTIM AFONSO DE SOUSA E AS BASES ECONÔMICAS DA COLONIZAÇÃO

A EXPEDIÇÃO DE MARTIM AFONSO DE SOUSA E AS BASES ECONÔMICAS DA COLONIZAÇÃO[1]
 A expedição que viria colonizar o Brasil foi organizada sob e com a interferência do rei português D. João III, que passou a ser conhecido como O Colonizador, buscando, portanto, ocupar as terras oficialmente. A expedição foi comandada por Martim Afonso de Sousa e contava com cinco embarcações – um galeão, duas caravelas e duas naus – e mais de 400 pessoas à bordo.
Rei Dom João III subiu ao trono em 1521[2]
Durante a viagem ao Brasil, os portugueses combateram e capturaram alguns navios franceses em águas brasileiras, bem como exploraram o rio da Prata, no sul do continente americano. Sabemos que a exploração desse rio foi um dos principais motivos da viagem de Martim Afonso de Sousa, já que se acreditava ser o Prata um dos caminhos para as regiões ricas em metais preciosos da América andina. Cerca de um ano depois de sua partida de Portugal, Martim Afonso de Sousa fundou, em janeiro de 1532, a vila de São Vicente, o primeiro núcleo efetivo dos portugueses no Brasil.


Martim Afonso de Sousa abaixo. [3]
O rio da Prata banha a capital uruguaia, Montevidéu[4].
A cidade de São Vicente, a primeira do Brasil[5]

Martim Afonso chegou à colônia com poderes judiciais sobre os demais homens que auxiliariam na colonização, bem como sobre os nativos e portugueses que habitavam o Brasil. Também ficou sob sua responsabilidade a missão de criar cargos judiciários e administrativos, necessários para o processo de colonização, e iniciar a distribuição de terras entre os colonizadores.
Ao redor da vila fundada por Martim Afonso de Sousa foram se organizando os primeiros engenhos de açúcar – base econômica do início da colonização. Discutiremos isso à frente, mas é importante enfatizarmos que os engenhos portugueses foram em grande parte construídos graças ao capital holandês. A cana-de-açúcar também foi introduzida no Brasil por Martim Afonso de Sousa, dono do primeiro engenho erguido na colônia, e auxiliado pelo capital do holandês Johann van Hielst – conhecido pelos portugueses como João Vaniste.
Há uma explicação para a interferência e participação dos holandeses, principalmente no início da colonização. Portugal enfrentou significativos problemas ao iniciar a colonização, sendo que um dos maiores remetia à falta de capital para colocar em prática o projeto colonizador. É nesse ponto que temos a participação dos holandeses, em sua maioria banqueiros e mercadores que, havia tempos, estavam associados com os portugueses, e passaram a financiar as construções dos engenhos e de outras inúmeras atividades econômicas da colônia.
Vários fatores justificam a escolha da cana-de-açúcar como mercadoria a ser produzida na colônia. Portugal já havia iniciado a produção de açúcar, através do cultivo da cana-de-açúcar, antes do descobrimento do Brasil. O açúcar português era produzido nas ilhas de Madeira, Açores e Cabo Verde. Portanto, não se tratava de uma atividade agrícola e comercial desconhecida. Atrelado a isso está o fato de que o açúcar se tratava de uma especiaria, “dono” de um mercado em expansão na Europa. Mas um dos fatores mais determinantes foi a semelhança entre os climas e condições ecológicas das ilhas atlânticas e do Brasil, principalmente do nordeste brasileiro, muito favoráveis ao plantio de cana-de-açúcar.
A fundação dos engenhos de açúcar tinha como objetivo povoar a colônia e assegurar a posse para os portugueses. Os engenhos se encaixavam no sistema econômico das plantations, ou seja, extensas plantações de um determinado gênero agrícola – no caso, a cana-de-açúcar –, produzindo mercadorias que fossem exportadas para o mercado europeu. Em decorrência desse sistema, as plantations (fica clara a intensa relação entre relação cultivo da cana, o engenho e a plantation, bases do processo colonizador português) faziam com que em todas áreas onde fossem implantadas, a policultura se tornasse atividade de caráter secundário e extremamente restrito.
Reprodução de um engenho de açúcar instalado na colônia[6].

A pecuária nordestina foi importante como atividade secundária. De grande importância na produção e manutenção do sistema açucareiro, na medida em que o gado criado em áreas próximas às plantações de cana-de-açúcar e aos engenhos era utilizado como força motriz para movimentar as moendas, meio de transporte para levar cargas e trabalhadores, vestuário – com a utilização do couro do animal – e fonte de alimento. A interiorização da pecuária se tornou um processo de singular importância na ocupação de novas terras pelos portugueses, como veremos  em textos futuros.
Podemos resumir o sistema de plantations da seguinte maneira: uma grande propriedade agrícola, trabalhada em sua imensa maioria por escravos, com tendência a autossuficiência, cuja produção se voltava quase que exclusivamente para o mercado externo.
A ESCRAVIDÃO, O ENGENHO DE AÇÚCAR E A MÃO-DE-OBRA
O engenho de açúcar exigia um grande contingente de trabalhadores para que fosse efetivamente realizada a produção do açúcar. Desde o plantio até as atividades dentro do engenho eram necessários muitos trabalhadores. Esses trabalhadores foram os escravos.
Os primeiros escravos no Brasil não foram os negros e sim os índios. O processo de escravização indígena resultou no primeiro grande genocídio português realizado na colônia. Durante o processo de colonização, muitas tribos foram dizimadas – principalmente as que praticavam rituais antropofágicos - , outras tantas tiveram que fugir para áreas interioranas, onde acabaram sendo caçadas – literalmente! É esse o termo – pelos bandeirantes. Sabemos também que muitas das doenças trazidas pelos europeus mataram centenas de milhares de indígenas. O processo de escravização indígena ocorreu pelo fato de que o escambo passou a deixar de funcionar. A partir do momento em que as mercadorias portuguesas não mais atraíam a curiosidade dos índios e que o ritmo de trabalho exigido pelos portugueses não se encaixava no cotidiano dos nativos, fez-se necessária a adoção da escravidão para manter os interesses portugueses.
Tanto as Guerras Justas quanto as Expedições de Apresamento, realizadas em grande parte pelos bandeirantes paulistas, tiveram papel de destaque na consolidação da escravidão indígena. As Guerras Justas se davam quando a Coroa Portuguesa autorizava o ataque a tribos indígenas que haviam atacado vilas e colonizadores; ou à índios que praticavam rituais antropofágicos e não se submetiam ao domínio português. Muitos dos índios morriam nesses conflitos, mas aqueles que eram capturados se tornavam escravos. Já as Expedições de Apresamento eram diretamente feitas para capturarem indígenas e torná-los trabalhadores escravos.
Qual seria o motivo que levou ao fim da utilização dos indígenas como escravos? A explicação do fim da utilização dos índios no processo de escravidão foi o fato de que essa atividade estava centrada como um negócio praticamente interno à colônia, trazendo uma reduzida margem de lucro ao comércio marítimo e à metrópole. A escravidão indígena, de certo modo, impedia o enriquecimento da burguesia lusitana. A própria Igreja Católica perdia significativas quantias de dinheiro com a não utilização dos escravos negros, já que possuía uma pequena parcela de lucro em cada homem negro que fosse escravizado e levado ao Novo Mundo. Portanto, tanto para burgueses, quanto para clérigos e para o rei português, a escravidão negra se tratava de um negócio muito mais rentável.
    Conhecida por Portugal desde antes do descobrimento do Brasil, a escravidão negra veio com a ocupação portuguesa de faixas litorâneas do continente africano. A Igreja Católica havia garantido monopólio desse tipo de atividade à monarquia portuguesa, fazendo com que muitos homens negros fossem introduzidos em Portugal como escravos domésticos. A utilização do trabalho escravo negro se deu também nas ilhas atlânticas.
    Mas a égide da questão da utilização dos negros como escravos – e, em especial, do tráfico negreiro – está sustentada no conhecido comércio triangular.
    Resumidamente, poderíamos afirmar que o negro era uma das moedas que possibilitavam o comércio marítimo entre a América, a África e a Europa. O desembarque desses homens era realizado nas áreas portuárias, principalmente do Nordeste brasileiro, região que mais recebeu escravos no início colonização.
 Nos portos era possível perceber o desenvolvimento de um intenso e movimentado comércio. Escravos eram trocados por cachaça, tabaco e outros produtos. Até o final do século XVII a média de escravos negros trazidos para o Brasil não ultrapassava os 8.000 homens por ano.
   Os escravos constituíram a base do sistema produtor de açúcar, bem como da estrutura colonial. Em grande medida, foram esses homens que possibilitaram o sucesso do projeto colonizador. Os engenhos de açúcar eram, na maioria, movimentados pelo braço do negro escravizado.
AS CAPITANIAS HEREDITÁRIAS
Para efetivamente colonizar a grande extensão colonial, a monarquia portuguesa escolheu o sistema de Capitanias Hereditárias, que já havia sido utilizado, com relativo sucesso, em algumas outras áreas coloniais de Portugal. A chegada de Martim Afonso de Sousa oficializou o início da montagem do sistema colonial, fazendo com que as terras fossem divididas em 15 lotes, doados a 12 capitães donatários (portanto, houve casos de donatários que receberam mais do que um lote). Esses capitães assumiriam a responsabilidade – quase que em todas as esferas – de fazer com que a colonização de seus lotes ocorresse e que esses se tornassem rentáveis do ponto de vista mercantil. Os cargos de donatários eram vitalícios e hereditários. Voltaremos a falar dos capitães donatários.
O processo de ocupação de um lote era, de fato, oneroso e complicado. Buscando “convencer” os donatários a assumirem suas Capitanias, a Coroa Portuguesa criou uma série de vantagens,  entre as quais o fato dos donatários terem o direito de escravizar as populações indígenas, desde que enviassem à Coroa Portuguesa uma parte da renda conseguida nesse comércio, bem como alguns escravos indígenas. Os donatários poderiam doar sesmarias - lotes de terras - a quem se interessasse em cultivá-los. No entanto, a doação só poderia ser feita aos cristãos portugueses. A distribuição de terras ficava sob a responsabilidade do donatário, o que não quer dizer que o mesmo fosse proprietário das terras. Todas as terras das Capitanias Hereditárias pertenciam ao rei português. Os donatários atuariam como administradores das terras reais. 
A princípio, a Coroa Portuguesa havia “convidado” membros da alta nobreza para se tornarem donatários na nova missão colonizadora em que Portugal embarcara. O desinteresse foi tanto, que a Coroa Portuguesa fez dos militares e navegadores ligados ao comércio oriental alguns dos seus capitães donatários. O maior ônus para os capitães donatários estava no fato de que grande parte da colonização se daria por investimentos próprios, e a grande maioria desses homens não possuía capital suficiente para tocar um projeto de tal envergadura. 
Muitos donatários – inclusive o donatário Martim Afonso de Sousa -, no intuito de iniciar a colonização de seus lotes, buscaram fazer empréstimos de banqueiros e negociantes – principalmente judeus - de Portugal e da Holanda. Mesmo assim, uma significativa parcela desses homens nunca chegou a pisar na colônia. Um dos maiores receios estava no fato de que o capital aplicado nos lotes não gerasse o devido retorno. E dos que chegaram a iniciar a colonização dos lotes recebidos, poucos foram os que obtiveram sucesso. O fracasso vinha por diversos motivos: terras inóspitas, índios hostis, distância entre as capitanias, dificuldade em defender as vilas etc.
As Capitanias Hereditárias [7].




[1] RAMOS, Pedro Henrique Maloso
[2] imagem extraída do sítio http://www.hirondino.com/historia-de-portugal/perca-reconquista-da-independencia/
[3] Imagem extraída do sítio https://pt.wikipedia.org/wiki/Martim_Afonso_de_Sousa
[4] Arquivo Pessoal
[5] imagem extraída do sítio http://guiadolitoral.uol.com.br/sao_vicente-2633_2009.html
[6] Imagem extraída do sítio https://pt.wikipedia.org/wiki/Plantation
[7] Imagem extraída do sítio http://www.escolakids.com/as-capitanias-hereditarias.htm

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Características, fases e vertentes do Renascimento - uma breve análise

Características, fases e vertentes do Renascimento - uma breve análise
Se você procurar em livros de História informações sobre o Renascimento irá descobrir que os estudiosos dividem esse movimento em fases (períodos) e correntes. O movimento foi tão amplo que não dá para encaixá-lo em um modelo único. Poderíamos dizer que o Renascimento foi diverso, amplo, e, por isso mesmo, algo bastante complexo.
  A princípio, existem duas correntes renascentistas:
  - O Renascimento Civil, ligado às cidades republicanas que eram dirigidas diretamente pela burguesia. Nesse "tipo" de Renascimento observamos que os temas do cotidiano eram visivelmente humanizados;
  - O Renascimento Cortesão, sendo a corrente que exerceu enorme domínio, se ligando aos príncipes, visivelmente empenhados em trazer elementos do Renascimento para dentro das cortes.
   Também há fases renascentistas. E é sobre essas fases que iremos falar agora.
1ª Fase: Trecento – corresponde à arte do século XIV, onde ocorre uma transição lenta e gradual da cultura medieval para a renascentista. Alguns historiadores definem essa fase como o pré-Renascimento. A obra que vemos ao lado[1], pertencente ao período, ainda não incorpora todos os elementos do Renascimento, mas já apresenta mudanças e inovações. Trata-se de uma das partes do quadro de um dos maiores pintores do Trecento: Giotto di Bondone (1266 – 1337). Se chama Ognissanti Madonna (Madonna entronizada). Foi pintada em 1310. Há um site interessante, com
todas as obras deste renascentista, além de informações sobre a vida do pinto. Está em inglês: http://www.giottodibondone.org/
2ª Fase: Quattrocento – corresponde à arte do século XV. Florença foi um dos campos principais desse período, ressaltando a importância do mecenato da família Médici. Nesse contexto é destacável a figura de Lorenzo de Médici, o “Magnífico”, que fundou a “Academia Platônica”, na qual pensadores ilustres buscavam conciliar o ideal cristão com o pensamento antigo. Um dos maiores nomes deste período foi Leonardo da Vinci (1452 - 1519). Abaixo uma imagem da cidade de Florença[2], um dos principais palcos do Renascimento no Quattrocento.
3ª Fase: Cinquecento – corresponde à arte do século XVI. Já é observável a crise do Renascimento. Mesmo assim Florença teve um grande destaque e muitos renascentistas chegaram ao esplendor. Em um texto futuro nos aprofundaremos a respeito dos motivos que levaram à essa crise, porém é importante frisar que o fim do monopólio das rotas comerciais pelas cidades italianas levou ao declínio do mecenato na península itálica. Um dos principais nomes do período foi o genial Michelangelo Buonarroti (1475 - 1564).

Também é possível afirmar que o Renascimento se estendeu por inúmeros campos, não se limitando somente às artes plásticas.
Como vimos, há uma fase de transição que irá inaugurar o Renascimento. Trata-se do Trecento. Daí para frente os renascentistas mergulharam nas inúmeras possibilidades de criar, inovar... E a imensidão do Renascimento se mostra a partir disso! Por mais que qualquer estudioso, historiador e pesquisador busque apontar todos os campos abordados pelos renascentistas, saiba que é praticamente impossível estabelecer um panorama rigorosamente completo. Mas dá para ter uma ideia da grandiosidade do movimento a partir do pequeno texto abaixo. Veja só.
Artes Plásticas
O movimento buscou acoplar o homem ao campo físico, através de imagens tridimensionais e o jogo de luzes. Nesse sentido é evidente apontar que existe uma enorme valorização do homem, da figura humana. No Trecento temos a construção dos traços renascentistas e a presença de um importante artista, Giotto, que representou os ideais precursores da arte renascentista. Já no Quattrocento temos o grande brilhantismo na produção de obras, bem como a presença de grandes gênios, entre eles Leonardo da Vinci, denominado o “gênio universal da Humanidade”. No Cinquecento tivemos o aparecimento de grandes pintores, protegidos por mecenas papas (ou seja, os artistas eram financiados pelos papas). e a importante figura de Michelangelo, como destacamos acima.
La Sibila Délfica (1509), de Michelangelo[3].

Literatura e Ciência (Humanismo)
Os humanistas eram, geralmente, alguns membros do clero, professores e burgueses. Desprezavam a cultura gótica medieval e primavam pelo individualismo, a vontade do poderio, o refinamento cultural e espiritual, buscando dominar os mais variados campos do conhecimento. No Trecento tivemos a presença de Dante Alighieri (1265 - 1321), com a obra “Divina Comédia”; já no Quattrocento foi fundamental o papel da “Academia Platônica”, como discorremos acima. E no Cinquecento tivemos obras que davam a base do Estado Moderno, essencialmente na formulação da razão de Estado. Assim, não nos é estranho o surgimento de uma obra que trabalhe diretamente com essas questões, como foi o caso da obra “O príncipe”, de Nicolau Maquiavel (1469 - 1527).
Nicolau Maquiavel, um dos maiores nomes da Renascença[4]


Renascimento Científico
Inquestionavelmente um dos campos mais fantásticos da Renascença, no Renascimento Científico tivemos a busca por explicações através da prática e do conhecimento empírico, não só baseado em livros. Tivemos o surgimento de experiências e observações, com um extraordinário conhecimento científico. O principal personagem foi Leonardo da Vinci, atuando em diversos campos. Mas também devem ser destacados vários outros nomes, entre os quais, Nicolau Copérnico (1473 - 1543) - e que logo, logo será abordado em um texto. A figura de Copérnico se destaca, principalmente, porque esse polonês demonstrou que a Terra não era o centro e sim o Sol, partindo inclusive dos estudos e observações feitos por Aristarco de Samos (310 - 230 a.C.)[5] .
Com o Renascimento Científico tivemos também um gigantesco progresso intelectual, indo muito além do campo das ciências, desbravando o funcionamento das coisas, projetando máquinas outrora impensáveis, estudando o corpo humano. Mas ainda muitos desses avanços foram freados pelos ditames religiosos do período. Abaixo, desenhos científicos do genial Leonardo da Vinci[6].
 







[1] Imagem extraída do sítio http://www.giottodibondone.org/ - 29/07/2015
[2] Imagem extraída do sítio  http://www.royalcaribbean.com.br/findacruise/ports/group/home.do?portCode=LSP - 29/07/2015
[3] Imagem extraída do sítio https://twitter.com/juananurkijo/status/600325057185980416 - 29/07/2015
[4] Imagem extraída do sítio https://luizmullerpt.wordpress.com/2013/02/17/os-500-anos-do-principe-de-maquiavel-por-antonio-lassance/ - 29/07/2015
[5] Para conhecer o trabalho de Aristarco de Samos, leia http://respirehistoria.blogspot.com.br/2015/03/uma-analise-historica-sobre-astronomia.html
[6] Imagem extraída do sítio https://dedsign.wordpress.com/textos/o-corpo-e-o-modelo/da-exploracao-anatomica-a-visao-morfologica/ - 29/07/2015