sexta-feira, 14 de março de 2025

TEXTO-BASE - 2º Bloco de Tarefas de Casa - História - 7º Ano - 1º trimestre

 Olá pessoal!

O presente texto tem como finalidade principal atender à solicitação da SEEDUC acerca de dois objetos de aprendizagem que devem ser ministrados no decorrer do 1º trimestre. A saber, eis os objetos de aprendizagem:

(EF07HI01) Explicar o significado de “modernidade” e suas lógicas de inclusão e exclusão, com base em uma concepção europeia.

(EF07HI07) Descrever os processos de formação e consolidação das monarquias europeias, bem como as principais características dessas monarquias com vistas à compreensão das razões da centralização política.

Apesar de ser um conteúdo que trabalhamos sim no decorrer das nossas aulas do sétimo ano, não o fazemos no primeiro trimestre, e isso em virtude da necessidade em se retomar pontos cruciais da Roma Antiga, fundamentais para a compreensão da História Medieval.

Posto isso, eis o motivo de usarmos esse texto. Dado o fato de que se trata de uma demanda, e da importância da mesma, a leitura se encerra com exercícios para ajudar na revisão.

Por fim, o texto estará dividido em quatro partes. Também serão indicados vídeos e leituras complementares, ajudando assim a consolidar o conteúdo aqui apresentado.

Vamos começar!

1.    Monarquia: o que é isso?


Nosso primeiro esforço é compreender o significado da palavra monarquia. Usada com bastante frequência nas nossas aulas, e isso desde o 6º ano, quando falamos “monarquia” estamos, de fato, entendendo aquilo que estamos dizendo?

Façamos, de início, uma análise etimológica da palavra monarquia.

A palavra “monarquia” tem origem grega (monarkhía), sendo composto por mónos ("um") e arkhḗ ("poder"). Para ficar fácil a compreensão, lembremos que algo monocolor é aquilo que apresenta uma cor só. Já o sufixo “arquia” normalmente encerra palavras que apresentam modelos de política e governança: “democracia, monarquia, oligarquia”.

A monarquia é, sem dúvidas, um dos modelos mais antigos de governo usados pelos seres humanos. Há registros de regimes monárquicos desde a pré-História, lá no período Neolítico. Estudos mostram, por exemplo, que aldeamentos neolíticos tinham estruturas monárquicas simples, onde o rei normalmente era o dono da maior parte das terras, ou o chefe religioso, ou o maior guerreiro. Também poderia ser essas três coisas juntas.


Como o próprio termo define, o rei governa sozinho (um, mono), podendo ser ou não ajudado por outras estruturas de poder. Normalmente, o cargo é vitalício e hereditário; ou seja, o rei só é substituído quando morre; e a sucessão é feita de pai para filho, ou através de uma indicação dada pelo rei. Mas isso não pode ser visto como uma regra geral, pois houve civilizações onde havia uma espécie de eleição para escolher o futuro rei, frente à morte do monarca anterior. Um exemplo é a monarquia romana (753 – 509 a.C.), onde o sucessor era escolhido através de uma ação do Conselho dos Anciãos, chamado futuramente de Senado. Mas dizer que sempre foram respeitadas essas indicações, é um tanto quanto errado. Vimos que golpes e assassinatos ocorreram.

Atualmente, existem no mundo 44 países que adotam a monarquia de diferentes maneiras, muitas das quais sendo o rei ou rainha uma mera figura nacional, sem grande relevância no andamento da política daquela nação (no caso do Reino Unido, do qual faz parte a Inglaterra, chamamos de Monarquia Constitucional).

Na imagem, rei britânico, Charles III

2.    A figura do rei no decorrer da História

É importante que saibamos que a figura do rei assumiu diferentes papéis e configurações no decorrer da História, algo que, muitas das vezes, passa despercebido por nós, mas tem uma enorme importância para entendermos a figura do rei na chamada Idade Moderna, ponto central da nossa análise.

E a primeira figura, cronológica inclusive, é a figura do rei-guerreiro.

2.A. O rei guerreiro

Muitas das civilizações da Antiguidade tiveram na figura do rei-guerreiro o início de sua monarquia. Trata-se daquele rei que é o general dos seus exércitos, que vai ao campo de batalha, luta, lidera, motiva seus guerreiros.

Exemplos não faltam.

Leônidas (540 – 480 a.C.), rei de Esparta, foi um dos hoplitas mais famosos dessa belicista cidade-Estado grega.

Hoplitas eram os cidadãos espartanos. E para ser cidadão em Esparta, fundamentalmente era necessário ser um soldado. Era a exigente carreira militar que levava à cidadania em Esparta.

Governando entre 491 e 480 a.C., Leônidas foi o sucessor de seu irmão, Cleómenes I. Leônidas foi peça fundamental nas guerras dos espartanos contra os persas (as chamadas Guerras Médicas), virando até tema de história em quadrinhos, sendo também, representado em filmes.

Cena do filme “300”. Eis Leônidas no primeiro plano.

Foi morto em batalha, lutando contra uma invasão persa, na conhecida Batalha das Termópilas, em 480 a.C.  

E aqui temos um problema e uma explicação para o fato da figura do rei-guerreiro parar de ser recorrente nas civilizações. Nem sempre substituir um rei era um processo fácil e tranquilo. Ao contrário, muitas vezes tinha início uma enorme disputa entre prováveis sucessores, dando início a uma guerra dentro da civilização.

E perder um rei em campo de batalha abria espaço para perigosos acontecimentos. Vide o caso de Alexandre, o Grande (356 – 323 a.C.), rei macedônico, responsável por uma expansão inacreditável. Após a sua morte, caos total. Briga entre generais e o completo esfacelamento do Império Macedônico.

Houve ainda alguns reis que parecem não ter aprendido bem essa lição, e cometeram os mesmos erros. Na Inglaterra, o rei Ricardo Coração de Leão (1157 – 1199) deixou a coroa para ir lutar nas Cruzadas. Resultado: seu irmão mais novo, João Sem-Terra (1166 – 1216), não pensou duas vezes, e tomou o poder, tornando-se Rei João I. Vacilo do rei Ricardo, sem dúvidas. Ah, e o resultado da ida do rei às Cruzadas não significou nada de grandioso.

Apesar de ter papel destacável na 3ª Cruzada, chamado inclusive de herói, Ricardo Coração de Leão presenciou o fato de que os eventos finais e desavenças entre as lideranças católicas, fizeram com que as conquistas caíssem uma por uma. Talvez fosse melhor ter ficado na Inglaterra mesmo...

Pior foi o rei português dom Sebastião (1554 – 1578), que partiu para Marrocos, lutar contra os “infiéis e pagãos”. Sem deixar herdeiros, reza a lenda que o pobre rei mal chegou a descer da embarcação no litoral marroquino. Morreu. E, por questões sucessórias, a Coroa Portuguesa foi parar nas mãos da Espanha por mais de meio século, configurando um período chamado de União Ibérica (1580 – 1640).

2.B. O rei das alianças

Começou a ficar claro, principalmente nos primeiros séculos da nossa Era, a chamada Era Cristã, que um rei precisaria construir alianças para governar de forma relativamente tranquila. Em outras palavras, ter apoio de outros setores e pessoas poderosas do seu reino.

E isso pode ser comprovado citando o caso de um dos reinos bárbaros.

Desde os primórdios de sua formação, o reino Franco só conseguiu efetivar sua união devido ao fato de aderir à Igreja Romana e defender o cristianismo. A união se deu por motivos religiosos e políticos. A Igreja concedeu ao rei franco uma espécie de título (major domus), que remetia à figura do imperador romano. Nome disso: ALIANÇA!

Após a vitória de Carlos Martel contra os muçulmanos, seu filho e sucessor, Pepino, o Breve, formou uma aliança ainda mais forte com a Igreja. Pepino doou as terras que formariam o Estado Pontifício e em 751 iniciou a dinastia Carolíngia. Em troca, a Igreja concedeu ao filho de Pepino, o Breve, Carlos Magno, o título de imperador.

Oras, essa aliança rei – Igreja Católica será uma das marcas mais fortes da Idade Média e, em alguns países, da Idade Moderna. Tanto que Portugal e outras nações serão conhecidos como reinos católicos.

Mas não foram só de alianças com a Igreja, a maior suserana da Europa Feudal, que os reis medievais viveram.

Havia fortes e importantes alianças entre senhores feudais. As obrigações e vínculos eram muitos e fundamentais para a manutenção da sociedade.  E esses vínculos moldaram toda a estrutura social da Europa do período. “Entre os guerreiros-proprietários, estabelece-se logo, uma clara distinção do cunho sócio militar: os aristocratas, grandes proprietários, verdadeiros chefes regionais; os médios proprietários, comandantes locais; e os simples proprietários, meros guerreiros[1].

As teias dessas relações eram os vínculos de dependência entre os senhores feudais, chamados de suserania e vassalagem (ou vassalagem de benefício).

Para explicar, pensemos em uma Europa dividida em inúmeros feudos, usando como exemplo uma grande colcha de retalhos, com diversas cores e tamanhos. As linhas da colcha, costurando os mais diversos pedaços, eram as relações e instituições, evitando também conflitos intermináveis[2], dentre as quais as relações de suserania e vassalagem. O que seria isso? Veja os esquemas abaixo:


Uma última análise. O exercício da guerra e da figura do rei-guerreiro não é eliminada de uma hora para outra nesse período (e nem no posterior, como já pudemos notar com o rei dom Sebastião). Basta lermos o trecho abaixo para entendermos a sua importância e presença, mesmo em um contexto diferente.

A questão militar é tão forte que até em situações onde não existia um conflito, ela estava presente. Dois exemplos básicos ilustram isso: “os casamentos dos filhos dos reis e de aristocratas pressupõem sempre que um contingente de guerreiros faça parte do dote da noiva. qualquer funcionário leal, quando no exercício de suas funções administrativas, faz-se sempre acompanhar por uma escolta de guerreiros”[3] 

2.C. Começa a nascer o rei do Estado Moderno

Esse é um dos pontos mais diretamente associados aos objetos de aprendizagem solicitados. Mas cabe uma pergunta (e que abrirá para tantas outras): fundamentalmente quais as diferenças de um rei medieval para um rei do Estado Moderno?

Para respondermos a essa questão, devemos, primeiramente, explicar conceitos básicos, e que nos fazer pular para o item 3 do nosso texto.

3.    Conceitos Básicos

O Estado Moderno recebe esse nome por estar encaixado no período que definimos como História Moderna, indo do final século XV até o final do século XVIII. Apesar disso, o primeiro modelo de Estado Moderno, com a configuração de uma monarquia de Estado Nacional na Europa, foi formado no final do século XII, ainda na Idade Média.

Estamos falando de Portugal.

A ideia aqui não é fazer uma análise da história que levou à formação do Estado Nacional português, algo que, sem dúvidas, faremos em outro momento e com outros textos. A ideia é exemplificar através do caso português para que, assim, consigamos explicar conceitos.

No final da Idade Média foi a burguesia uma das maiores responsáveis pela formação de alguns dos Estados Nacionais. Em algumas situações seu poder político (decorrente do crescimento econômico que conquistara) era tão grande que foi ela quem sentou ao lado do futuro rei para decidir algumas leis, discutir algumas medidas que seriam adotadas, algumas regras que deveriam valer, obviamente pensando no fato de que as atividades comerciais deveriam entrar na pauta de reunião do futuro monarca.

O raciocínio era simples: pergunta o burguês “você irá nos ajudar?”. O rei, sem muitas possibilidades de escolha (e também acreditando que lucraria com a troca), respondia que sim. “Pois bem, iremos financiar e apoiar o seu reino” responderiam os burgueses.

Essa questão do apoio da burguesia ao rei derrubou definitivamente a figura do senhor feudal. Leo Huberman, em seu livro a “História da Riqueza do Homem”, nos mostra isso. Acompanhe um trecho que comprova a nossa afirmação:

O rei fora um aliado forte das cidades na luta contra os senhores feudais. Tudo o que reduzisse a força dos senhores feudais fortalecia o poder real. Em recompensa pela sua ajuda, os cidadãos (aqui como habitantes das cidades, os burgueses) estavam prontos a auxiliar o rei com empréstimos em dinheiro. Isso era importante porque, com dinheiro, o rei podia dispensar a ajuda militar de seus vassalos. Podia contratar e pagar um exército pronto, sempre a seu serviço, sem depender da lealdade de um senhor. Seria também um exército melhor, porque tinha uma única ocupação: lutar. Os soldados feudais não tinham preparo nem organização regular que lhes permitisse atuar em conjunto, com harmonia[4].

Esse é o primeiro e importante conceito que deve ficar claro na nossa cabeça sobre       o rei do Estado Moderno: ele governa através de alianças mais amplas, e com o difícil e complexo jogo em atender interesses diferentes, muitas vezes conflitantes.

Também se torna claro que o rei do Estado Moderno precisa construir uma relativa independência quanto aos vínculos com outros nobres, e, para tanto, faz uso dos recursos burgueses, conseguidos através do comércio, por exemplo.

Assim, o rei reúne recursos para equipar o exército, eliminar os vínculos de dependência com os seus vassalos (que muitas vezes colocavam dificuldades para auxiliar um suserano que estivesse aumentando seu poder).

O estado nacional português nasceu também dessa aliança rei – burguesia.

Sendo assim, podemos retomar o ponto 2.C!

Óbvio que a figura do rei do Estado Moderno ainda estava estruturada basicamente na ideia de uma série de cerimônias e rituais, garantindo a coroação, aclamação e legitimidade do monarca. Isso explica o porquê de uma carta ser assinada por João Sem-Terra, quando este tornou-se rei da Inglaterra, na presença de membros da burguesia, da nobreza e da Igreja Católica. Legitimidade, inclusive garantida por um documento escrito, no caso, o mais importante da Inglaterra do período, a Magna Carta, em 1215.

Agora, isso NEM DE PERTO SIGNIFICA que esse monarca terá como marca principal o diálogo e o acolhimento de todos os setores da sociedade. Ao contrário, o que se confirma e verifica é a exclusão da maior parte da população, alijada de quaisquer direitos políticos e participação nas decisões acerca do futuro da nação. A exclusão só foi reafirmada na Idade Moderna. E, veremos, sob diversos aspectos.

Portanto, em resumo, podemos identificar como elementos centrais desse rei do Estado Nacional Moderno e de sua governança as seguintes características:

- Aliança do rei com a burguesia;

- Fim dos vínculos de dependência com os suseranos;

- Construção de uma ideia de nação, com a presença de documentos nacionais (como a Magna Carta), de uma moeda nacional única (facilitando assim as trocas comerciais); de leis para o território todo e de um exército nacional;

- Passagem do Feudalismo para o Capitalismo, marcado pelo florescimento e fortalecimento da burguesia;

- Presença de uma Europa mais urbanizada.

  2.D. Rei forte, Estado Nacional Forte?

No ciclo dessas transformações, e como uma marca consolidada do Estado Nacional Moderno, surge o rei absolutista. E o termo absolutista é literal. O rei tinha poder absoluto, confundindo-se muitas vezes com a própria existência do Estado Nacional (ou seja, a ideia de que ele era o poder, a representação maior da nação).

Oras, em um poder absoluto diálogo não é pauta do monarca. E, para tanto, há setores, inclusive a burguesia, que precisaram apoiar e financiar esses líderes absolutistas. Foi o que ocorreu em algumas monarquias europeias entre os séculos XVI e XVIII. E o caso que usaremos aqui para exemplificar é o inglês.

O desenvolvimento marítimo da Inglaterra, permitindo que a mesma se tornasse uma potência durante as Grandes Navegações (séculos XV – XVI), se deu graças ao governo do rei absolutista Henrique VIII.


O grande feito do rei Henrique VIII (imagem) foi a modernização da marinha inglesa, quadruplicando a quantidade de embarcações. “A partir de 1579, os galeões da frota real passaram a ser equipados com canhões de longo alcance, fato que lhes permitia 'acertar os navios inimigos a uma grande distância. Além de servirem ao comércio, os navios passaram a servir também à guerra, favorecendo a expansão marítima inglesa.

Em 1588, os ingleses enfrentaram e venceram a ‘Invencível Armada’ de Filipe II, aplicando um sério golpe no prestígio da Espanha, considerada então o mais poderoso país europeu. A partir daí, intensificaram-se as viagens de navegadores e de corsários à América, com o objetivo de saquear as embarcações espanholas carregadas de ouro e de empreender contrabando com as Antilhas[5].

Partindo disso, como podemos definir o rei absolutista? Segue um breve resumo do Absolutismo.

Pode ser resumidamente definido como um sistema político e administrativo que prevaleceu na Europa entre os séculos XVI e XVIII. Tal sistema possibilitou uma grande centralização do poder nas mãos do rei. Nesse processo o rei contou com o apoio da burguesia, pois era interessante para a mesma um governo forte e capaz de direcionar os recursos para a realização da expansão ultramarina. O rei concentrava praticamente todos os poderes.

Em resumo:

- O rei tinha poder absoluto sobre o seu Estado, o que indica uma administração era centralizada, que não havia limites constitucionais, que o rei acumulava poderes para instituir tributos e regulamentava os impostos a serem cobrados no seu território;

- Como já lemos, o rei tinha o apoio da burguesia, da ordem intelectual e filosófica. Nosso último ponto, a começar em breve, discutirá isso.

Agora, por que eu coloco interrogação nesse item (2.D. Rei forte, Estado Nacional Forte?)? Porque, via de regra, após monarcas absolutistas, os Estados Nacionais mergulharam em crises políticas que, quando não derrubaram definitivamente a monarquia, chegando a cortar as cabeças dos membros da família real, promoveram mudanças políticas sérias, a ponto de adotar regimes republicanos. A ideia de um poder extremamente centralizado em uma época de tamanhas mudanças, como foi a Idade Moderna, era algo perigosamente instável. A Europa passava por inúmeras transformações.

4.    A Idade Moderna, as monarquias e a figura do rei

Podemos afirmar que a análise da Europa no século XIV é fundamental para entendermos a ligação entre as palavras que aparecem no título do tópico quatro, bem como compreender a importância do Renascimento.

No entanto, não é nosso propósito uma análise detalhada sobre o Renascimento, algo que será devidamente feito no decorrer do ano. Faremos aqui algumas referências sobre o tema, tendo como intuito principal atender aos objetivos do texto.

Se observarmos o que ocorria entre o final do século XIII (em torno de 1270) até o final do século XV chegaríamos a incrível conclusão de que um conjunto de transformações atingia a sociedade europeia.

A princípio, podemos partir do fato de que na Baixa Idade Média começaram ocorrer a ampliação e diversificação das atividades comerciais e urbanas. Como resultado dos Renascimentos Comercial e Urbano tivemos o aparecimento da classe burguesa, imprimindo uma visão absolutamente nova a sociedade que era, até o momento, ligada às tradições e costumes feudais. Visão essa que se estendia a maneira como o homem enxergava e entendia a sociedade. Ao mesmo tempo, a Europa era assolada pelas crises epidêmicas e pelo movimento de formação e fortalecimento dos Estados Nacionais. O mundo medieval sofria transformações irreversíveis.

O aparecimento da classe burguesa trazia uma nova possibilidade de realidade socioeconômica. Citando José Geraldo Vinci de Moraes, “nesse momento começava a surgir o burguês com uma visão de mundo e de natureza bem diferente do homem medieval, o que seria muito importante para questionar e superar o universo da Idade Média[6]. O que ficou claro era a necessidade de a burguesia construir uma identidade cultural legitima que a auxiliasse e incentivasse suas atividades, além de combater as estruturas feudais, que dificultavam a expansão do comércio.

Isso porque a prática de cobrança de juros pela burguesia era considerada um pecado daqueles bem cabeludos pela Igreja Católica. Ou seja, a atividade burguesa tinha um caráter pecaminoso segundo os princípios católicos do período.

Uma das primeiras medidas adotada pela burguesia foi ampliar e divulgar o conhecimento como uma das formas de combater as estruturas engessadas do Sistema Feudal. A burguesia passou a apoiar grupos de estudiosos e cientistas. “A partir desse movimento introduziu-se na formação educacional ‘os estudos humanos’ (história, filosofia, retórica, matemática e poesia), que procuravam dar condições para o progresso e desenvolvimento humano[7]. As pessoas responsáveis por realizar esse movimento, o Humanismo, ficaram conhecidas como humanistas. O Humanismo foi o despertar do Renascimento.

A ocorrência do Humanismo esteve diretamente ligada a passagem lenta e gradual para uma visão que se baseava na análise do mundo concreto e físico dos seres humanos, cercado de problemas, aflições, sentimentos etc. Era o surgimento de uma visão antropocêntrica (antropo: homem; cêntrica: no centro de todas as coisas/ do Universo), glorificando a natureza humana. Era o despertar do Renascimento.

Tá! E de que maneira as monarquias e seus respectivos reis entram nisso? Oras, a partir desse momento, pensadores e intelectuais passaram a estudar e produzir obras, cultura, moda, arte associadas às nascentes monarquiais nacionais. Desde estudos sobre a economia nacional, até a presença de importantes renascentistas dentro das cortes, a ideia era dar um ar de modernidade a já arcaica estrutura monárquica. Tanto que o rei francês Francisco (1494 – 1547) levou o famoso Leonardo da Vinci para viver em seu castelo. Francisco I também foi o patrono do Renascimento Francês!

 Para finalizar, três vídeos que podem ajudar você a compreender melhor aquilo que foi trabalhado nos textos. Não são obrigatórios.

1º vídeo: a formação dos Estados Modernos


2º vídeo: o Estado Moderno


3º vídeo: fome, peste e guerra – o século XIV na Europa Medieval

Agora, seis exercícios! Esses sim SÃO OBRIGATÓRIOS!

1) Resumidamente, indique duas características da monarquia.

2) Indique diferenças entre um rei medieval e um rei do Estado Moderno.

3) Escreva de que maneira os camponeses europeus participavam da política dos Estados Nacionais.

4) Pesquise a vida e o governo de um rei de um Estado Moderno (exemplo: um rei francês do século XVI, ou um português do século XV).

5) Resumidamente, explique o que foi o Absolutismo.

6) Faça um painel (pode ser um pequeno mapa mental) do Estado Nacional Moderno. 



[1] Rezende Filho, Cyro de Barros. Guerra e guerreiros na Idade Média/ Cyro de Barros Rezende Filho. – São Paulo; Contexto, 1996. (Coleção repensando a história geral). p. 32.

[2] Já pensou na quantidade de conflitos que um senhor feudal estaria envolvido para proteger suas terras de outros feudos?

[3] Rezende Filho, Cyro de Barros. Guerra e guerreiros na Idade Média/ Cyro de Barros Rezende Filho. – São Paulo; Contexto, 1996. (Coleção repensando a história geral). p. 28. (modificado)

[4] Huberman, Leo. História da riqueza do homem/ Leo Huberman; tradução de Waltensir Dutra. – 21ª. ed. – Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. pp.72 – 73 (adaptado)

[6] Moraes, J. G. Vinci de. “Caminhos das Civilizações – da Pré-História aos dias atuais” - São Paulo: Atual, 1993.  p. 129

[7] Moraes, J. G. Vinci de. “Caminhos das Civilizações – da Pré-História aos dias atuais” - São Paulo: Atual, 1993.  p. 168

quinta-feira, 13 de junho de 2024

A.P. Substitutiva - 2º trimestre/ História

 História A. P. – 7º Ano/ 2ª tri – Substitutiva

Cada teste vale 1,5!

Em nossas aulas vimos diversas vezes um gráfico, apontando o crescimento do comércio a partir do século XI na Europa Medieval. Partindo dessa análise, responda.

1) Esse crescimento comercial ficou conhecido como:

a) Renascimento Agrícola; b) Renascimento Bélico; c) Renascimento Comercial; d) nenhuma das anteriores.

2) Responsáveis por realizar as trocas comerciais, surge como um novo grupo na Idade Média. Falamos...

a) dos senhores feudais; b) dos burgueses; c) dos clérigos; d) dos guardas pretorianos.

3) Dos burgos...

a) surgiram os feudos; b) surgiram diversas cidades medievais; c) surgiu a Igreja Católica; d) nenhuma das anteriores. 

4) É correto afirmar: ”não tivemos na Baixa Idade Média...”

a) feiras medievais; b) desenvolvimento de novas ferramentas agrícolas; c) expansão do Império Romano; d) nenhuma das anteriores.

5) Escolha um tema abordado nas aulas e escreva sobre. Não vale copiar. (4,0)

sexta-feira, 8 de março de 2024

1ª A. P. Substitutiva - 7º Ano - 1º tri/ 2024

  1ª A.P. Substitutiva – HISTÓRIA

 
  1) Qual das palavras abaixo completa corretamente a rima acima (1,0/___):

a) uma anarquia; b) uma república; c) uma monarquia; d) uma oligarquia.

2) Escreva duas características do período escolhido por você na questão 1. (1,0/___)

3) Afirmamos que tal Conselho esteve envolvido com o final do período monárquico. Explique porque podemos fazer tal afirmação. (2,0/___)

4) Porque podemos afirmar que a expansão territorial fez aumentar a escravidão em Roma? Justifique sua resposta. (2,0/____)

5) Podemos afirmar que as invasões bárbaras enfraqueceram o império romano? Justifique sua resposta. (2,0/____)

6) Além das invasões bárbaras, que outros fatores aumentaram a crise do império romano? (2,0/___)

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Pompeia: uma aula de arqueologia!

 POMPEIA: UMA AULA DE ARQUEOLOGIA!

Uma cidade marcada por uma tragédia, tragédia essa que possibilitou conhecer melhor como viviam os romanos. Uma cidade que parece ter sido congelada no tempo, e tudo isso em virtude da erupção vulcânica do Monte Vesúvio.

Eis Pompeia.

Antes de entendermos o que efetivamente aconteceu, vamos conhecer Pompeia, entender melhor essa cidade.

1. Pompeia!



Construída aproximadamente 40 metros acima do nível do mar em um planalto costeiro de lava criado por erupções anteriores do Monte Vesúvio, que fica à 8 quilômetros de distância, a cidade, antes costeira, está hoje cerca de 700 metros para o interior. A foz do navegável rio Sarno, adjacente à cidade, era protegida por lagoas e serviu aos primeiros marinheiros gregos e fenícios como porto de refúgio, posteriormente desenvolvido pelos romanos. Portanto, falamos de uma área já povoada antes da formação da Roma Antiga.

A cidade cobria uma área um pouco maior do que meio quilômetro quadrado (ou seja, no início bem pequena. São Caetano do Sul é cerca de 22 vezes maior). A população da cidade era de aproximadamente onze mil pessoas, com base na contagem de domicílios.

Os primeiros assentamentos estáveis no local são do século VIII a.C., quando os oscos, povo que habitava o centro da Itália, fundaram cinco aldeias na região.

Com a chegada dos gregos à Campânia por volta de 740 a.C., Pompeia entrou na órbita do povo helênico. O edifício mais importante deste período é o Templo Dórico (lembrando que os dórios fundaram Esparta e eram bem conhecidos por ser um povo guerreiro), construído longe do centro, no que mais tarde se tornaria o Fórum Triangular. Ao mesmo tempo, o culto de Apolo foi introduzido. Marinheiros gregos e fenícios usaram o local como porto seguro.



No início do século VI a.C, o assentamento se fundiu em uma única comunidade centrada no importante cruzamento entre Cumas, Nola e Stabiae e foi cercada por uma muralha de tufo (a muralha de pappamonte), a primeira muralha. O fato de um muro tão impressionante ter sido construído nesta época indica que o assentamento já era importante e rico. A cidade começou a florescer e o comércio marítimo começou com a construção de um pequeno porto perto da foz do rio. 

Por volta de 524 a.C. os etruscos instalaram-se na região, incluindo Pompeia, encontrando no rio Sarno uma via de comunicação entre o mar e o interior. Façamos aqui uma importante revisão.

Os etruscos foram o povo que dominou a Roma Antiga no final do período monárquico. Dentre as ações etruscas, podemos listar:

- construção de um muro ao redor da cidade de Roma (muro serviano);

- domínio de regiões ao redor da cidade de Roma, criando o que foi chamada de Liga Etrusca das cidades.

- Pompeia fez parte dessa liga. Mas não foi dominada militarmente pelos etruscos, possuindo inclusive certa autonomia.



Escavações entre 1980 e 1981 mostraram a presença de inscrições etruscas e uma necrópole[1] do século VI a.C. 

Sob os etruscos, foi construído um fórum primitivo ou simples praça de mercado, bem como o Templo de Apolo.

Em 474 a.C., a cidade grega de Cumas, aliada a Siracusa, derrotou os etruscos na Batalha de Cumas e ganhou o controle da área (a chamada Batalha de Cumas).

Após essa batalha, e principalmente após 450 a.C., sob liderança dos gregos, houve um crescimento da cidade que viria a ser Pompeia.

Os samnitas (vale lembrar que esse povo também participou da formação da Roma Antiga, sendo considerado um aliado dos romanos), entre 423 e 420 a.C. conquistaram a área, incluindo Pompeia.   Os novos governantes impuseram gradualmente a sua arquitetura e ampliaram a cidade.

De 343 a 341 a.C., nas Guerras Samnitas, o primeiro exército romano entrou na planície da Campânia trazendo consigo os costumes e tradições de Roma, e na Guerra Romana Latina de 340 a.C., os samnitas foram fiéis a Roma. Embora governada pelos samnitas, Pompeia entrou na órbita romana, à qual se manteve fiel mesmo durante a terceira guerra samnita e na guerra contra Pirro. No final do século IV a.C., a cidade começou a expandir-se do seu núcleo para a área de muros abertos. As muralhas da cidade foram reforçadas em pedra Sarno no início do século III a.C (o cerco de calcário, ou a "primeira muralha samnita"), formando a base para as paredes atualmente visíveis.

Após as Guerras Samnitas de 290 a.C., Pompeia foi forçada a aceitar o estatuto de sociedade de Roma, mantendo, no entanto, mantendo a autonomia linguística e administrativa. Portanto, apesar de fazer parte do universo romano, estar diretamente encaixada na política expansionista romana, Pompeia gozava de certa autonomia.

Desde a eclosão da Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), na qual a invasão de Aníbal ameaçou muitas cidades, Pompeia permaneceu fiel a Roma, ao contrário de muitas cidades do sul. Como resultado, uma parede interna adicional foi construída, bem como outros mecanismos de defesa. Mesmo com a região mergulhada em um quadro de instabilidade e conflitos, Pompeia continuou a florescer devido à produção e comércio de vinho e azeite com lugares como Provença e Espanha, bem como à agricultura intensiva em fazendas ao redor da cidade. E isso confirma o período comercial vivido pela sociedade romana.

No século II a.C., Pompeia enriqueceu ao participar na conquista do Oriente por Roma, como mostra uma estátua de Apolo no Fórum erguida por Lúcio Múmio (imagem abaixo)


em gratidão pelo seu apoio no saque de Corinto e nas campanhas orientais. Essas riquezas permitiram que Pompeia florescesse e se expandisse até seus limites. O Fórum e muitos edifícios públicos e privados de alta qualidade arquitetônica foram construídos, incluindo o Grande Teatro e o Templo de Júpiter.

2. Os últimos séculos de Pompeia

Pompeia foi uma das cidades da Campânia que se rebelou contra Roma nas Guerras Sociais e em 89 a.C. foi sitiada por Sila, que atacou a estrategicamente vulnerável Porta Herculano com sua artilharia, como ainda pode ser visto pelas crateras de impacto de milhares de tiros de balista nas paredes. Muitos edifícios próximos dentro das muralhas também foram destruídos. Embora as tropas endurecidas pela batalha da Liga Social, lideradas por Lúcio Cluêncio, tenham ajudado na resistência aos romanos, Pompeia foi forçada a se render após a conquista de Nola. O resultado foi que a cidade se tornou uma colônia romana chamada Colonia Cornelia Veneria Pompeianorum. Muitos dos veteranos de Sila receberam terras e propriedades dentro e ao redor da cidade, enquanto muitos que se opuseram a Roma foram desapropriados de suas propriedades. Apesar disso, aos pompeianos foi concedida a cidadania romana e rapidamente assimilados pelo mundo romano. A principal língua da cidade tornou-se o latim, e muitas das antigas famílias aristocráticas de Pompeia latinizaram os seus nomes como sinal de assimilação.


Pompeia passava a ser definitivamente romana.

A área ao redor de Pompéia tornou-se muito próspera devido à proximidade da Baía de Nápoles, onde havia uma rica população romana e férteis terras agrícolas. Muitas fazendas e vilas foram construídas nas proximidades, fora da cidade e muitas foram escavadas.

A cidade tornou-se uma importante passagem para mercadorias que chegavam por mar e tinham de ser enviadas para Roma ou para o sul da Itália ao longo da vizinha Via Ápia. Muitos edifícios públicos foram construídos ou remodelados e melhorados sob a nova ordem; dentre os novos edifícios temos o Anfiteatro de Pompéia em 70 a.C., os Banhos do Fórum e o Odeon. Estes edifícios elevaram o estatuto de Pompeia como centro cultural da região, uma vez que superou os seus vizinhos no número de locais de entretenimento, o que melhorou significativamente o desenvolvimento social e econômico da cidade.

Por volta de 20 a.C., Pompeia foi alimentada com água corrente por um esporão do Aqueduto Serino, construído por Marcus Vipsanius Agrippa.

O aqueduto Serino e o anfiteatro de Pompeia.


As crises do final da República romana também estiveram presentes na cidade de Pompeia. E se alastram para o conturbado período imperial.

Tanto que em 59 d.C., houve um grave motim e derramamento de sangue no anfiteatro entre Pompeus e Nucerianos (que está registrado num fresco) e que levou o Senado Romano a enviar a Guarda Pretoriana para restaurar a ordem e proibir novos eventos durante dez anos. Ou seja, durante dez anos nenhum evento poderia ocorrer naquele anfiteatro.

Mas o maior dos problemas enfrentados pelos pompeianos não estava ligado a uma batalha, aos exércitos invasores, ou mesmo às crises crônicas do período imperial.

O maior dos problemas de Pompeia estava no monte Vesúvio.

3. A erupção do Vesúvio

Os habitantes de Pompeia estavam habituados há muito tempo a pequenos terremotos. Tanto que o escritor e jurista Plínio, o Jovem (61 – 113), assim descreveu:

"não eram particularmente alarmantes porque são frequentes na Campânia".

Mas o dia 5 de fevereiro de 62 a.C. mostraria que eles poderiam ser bem alarmantes sim!

Um forte terremoto causou danos consideráveis ao redor da baía, e particularmente em Pompeia. Acredita-se que o terremoto chegou aos 6 graus na escala de magnitude Richter.

Naquele dia, em Pompeia, haveria dois sacrifícios, pois era o aniversário da nomeação de Augusto como Pater Patriae (“Pai da Pátria”) e também uma festa em homenagem aos espíritos guardiões da cidade. O caos seguiu-se ao terremoto; incêndios causados por lamparinas a óleo que caíram durante o terremoto aumentaram o pânico. As cidades vizinhas de Herculano e Nuceria também foram afetadas.

Entre 62 d.C. e a erupção de 79 d.C., a maior parte das reconstruções foi feita no setor privado e os afrescos mais antigos e danificados eram frequentemente cobertos com outros mais novos, por exemplo. No setor público, aproveitou-se a oportunidade para melhorar os edifícios e o plano da cidade, por exemplo no Fórum.

Nesse período, a cidade ainda estava florescendo, em vez de lutar para se recuperar do terremoto.

Por volta de 64, Nero, então imperador romano, e sua esposa, visitaram Pompeia e trouxeram presentes ao templo de Vênus (a divindade padroeira da cidade).

Em 79, Pompeia tinha uma população de 20.000 habitantes, que prosperou devido à renomada fertilidade agrícola e à localização favorável da região. Mas não há certeza quanto a esse número de habitantes.

E foi neste ano que tudo mudou. Dois dias que demonstraram o quão mortal poderia ser o Vesúvio.

A erupção durou cerca de 48 horas. A primeira fase foi de chuva de pedra-pomes com duração de cerca de 18 horas, permitindo a fuga da maioria dos habitantes. Até agora, apenas cerca de 1.150 corpos foram encontrados no local, o que parece confirmar esta teoria, e a maioria dos fugitivos provavelmente conseguiu salvar alguns dos seus pertences mais valiosos; muitos esqueletos foram encontrados com joias, moedas e talheres.

Em algum momento da noite ou no início do dia seguinte, fluxos piroclásticos começaram perto do vulcão, consistindo em nuvens de cinzas densas e abrasadoras de alta velocidade, derrubando total ou parcialmente todas as estruturas em seu caminho, incinerando ou sufocando a população restante e alterando a paisagem, incluindo o litoral. Na noite do segundo dia, a erupção terminou, deixando apenas neblina na atmosfera através da qual o sol brilhava fracamente.


Um estudo multidisciplinar dos produtos e vítimas da erupção, mesclado com simulações numéricas e experimentos, indica que em Pompeia e nas cidades vizinhas o calor foi a principal causa de morte de pessoas, que anteriormente se acreditava terem morrido por asfixia com cinzas. Os resultados do estudo, publicado em 2010, mostram que a exposição a fluxos piroclásticos quentes de pelo menos 250 °C a uma distância de 10 quilômetros da fonte foi suficiente para causar morte instantânea, mesmo que as pessoas estivessem abrigadas dentro de edifícios. As pessoas e edifícios de Pompeia foram cobertos por até doze camadas diferentes de tefra (fragmentos de rochas expelidos pelo vulcão), cobrindo a cidade com uma camada de até 6 metros de profundidade.

Em 2023, estudos demonstraram que alguns edifícios desabaram devido a um ou mais terremotos durante a erupção, matando os ocupantes. 

Corpos petrificados dão ideia do momento da erupção

Plínio, o Jovem, que provavelmente visualizou a erupção a partir de sua posição do outro lado da Baía de Nápoles, em Miseno, escreveu um relato do evento, mas isso cerca de 28 anos após o ocorrido. É o único registro escrito de uma testemunha do que Pompeia viveu naquele ano.

Seu tio, Plínio, o Velho, com quem mantinha um relacionamento próximo, morreu enquanto tentava resgatar vítimas perdidas. Como almirante da frota, Plínio, o Velho, ordenou que os navios da Marinha Imperial estacionados em Miseno cruzassem a baía para auxiliar nas tentativas de evacuação.

Agora, quando ocorreu esse terrível evento, em que dia? Veremos que estudos apontam que não foi em agosto. Mas provavelmente entre outubro e novembro.



4. O dia!

Há muito se pensava que a erupção era um evento de 24 de agosto com base em uma versão da carta, mas outra versão dá uma data da erupção até 23 de novembro. Uma data posterior é consistente com uma inscrição a carvão no local, descoberta em 2018, que inclui a data de 17 de outubro e que deve ter sido escrita recentemente. Um estudo colaborativo em 2022 determinou uma data de 24 a 25 de outubro.

Uma erupção de Outubro/Novembro é claramente apoiada por muitas evidências: o fato de as pessoas enterradas nas cinzas parecerem usar roupas mais pesadas do que as roupas leves de verão típicas de Agosto; as frutas e legumes frescos nas lojas são típicos de Outubro; foram encontradas nozes de castanheiros em Oplontis[2], que não estariam maduras antes de meados de setembro; os potes de fermentação do vinho foram selados, o que teria acontecido por volta do final de outubro; as moedas encontradas na bolsa de uma mulher não poderiam ter sido cunhadas antes da segunda semana de setembro.

5. Depois da erupção

O imperador Tito (9 – 79) nomeou dois ex-cônsules para organizar um esforço de socorro enquanto doava grandes quantias de dinheiro do tesouro imperial para ajudar as vítimas do vulcão. Ele visitou Pompéia uma vez após a erupção e novamente no ano seguinte, mas nenhum trabalho de recuperação foi feito.

Logo após o enterro da cidade, sobreviventes e possivelmente ladrões vieram resgatar objetos de valor, incluindo as estátuas de mármore do Fórum e outros materiais preciosos dos edifícios. Há ampla evidência de distúrbios pós-erupção, incluindo buracos feitos nas paredes. A cidade não foi completamente soterrada e os topos dos edifícios maiores seriam visíveis acima das cinzas, tornando óbvio onde cavar ou recuperar material de construção. Os ladrões deixaram vestígios de sua passagem, como em uma casa onde os arqueólogos modernos encontraram um graffito na parede dizendo "casa escavada".

Ao longo dos séculos seguintes, o seu nome e localização foram esquecidos, embora ainda aparecesse na Tabula Peutingeriana do século IV. Outras erupções, particularmente entre 471 e 512, cobriram os restos mortais mais profundamente. A área ficou conhecida como La Civita (a cidade) devido às características do terreno.

A próxima data conhecida em que qualquer parte foi desenterrada foi em 1592, quando o arquiteto Domenico Fontana, ao cavar um aqueduto subterrâneo para os moinhos da Torre Annunziata, encontrou paredes antigas cobertas de pinturas e inscrições. No entanto, ele manteve a descoberta em segredo.

Em 1689, Francesco Picchetti viu uma inscrição na parede mencionando o decurio Pompeiis ("vereador de Pompéia"), mas associou-a a uma vila de Pompeu. Francesco Bianchini apontou o verdadeiro significado e foi apoiado por Giuseppe Macrini, que em 1693 escavou algumas paredes e escreveu que Pompeia ficava abaixo de La Civita.

A porta Herculano foi redescoberta em 1738 por trabalhadores que escavavam as fundações de um palácio de verão do rei de Nápoles, Carlos de Bourbon. Devido à qualidade espetacular dos achados, o engenheiro militar espanhol Roque Joaquín de Alcubierre fez escavações para encontrar mais vestígios no local de Pompeia em 1748, mesmo que a cidade não tenha sido identificada. Carlos de Bourbon teve grande interesse nas descobertas, mesmo depois de partir para se tornar rei de Espanha, porque a exposição de antiguidades reforçou o prestígio político e cultural de Nápoles. Em 20 de agosto de 1763, uma inscrição [...] Rei Publicae Pompeianorum [...] foi encontrada e a cidade foi identificada como Pompeia. Pompeia renascia!

6. Arqueologia em Pompeia

Karl Weber dirigiu as primeiras escavações científicas.

Houve muito progresso na exploração quando os franceses ocuparam Nápoles em 1799 e governaram a Itália de 1806 a 1815. As terras onde fica Pompeia foram confiscadas e até 700 trabalhadores foram empregados nas escavações. As áreas escavadas no norte e no sul foram conectadas. Partes da Via dell'Abbondanza também foram expostas na direção oeste-leste e, pela primeira vez, foi possível apreciar uma impressão do tamanho e da aparência da antiga cidade. Nos anos seguintes, as escavadeiras enfrentaram a falta de dinheiro. As escavações avançaram lentamente, mas com achados significativos como as casas do Fauno, de Menandro, do Poeta Trágico e do Cirurgião.

Giuseppe Fiorelli encarregou-se das escavações em 1863 e fez maiores progressos. Durante as primeiras escavações do local, foram encontrados vazios ocasionais na camada de cinzas que continham restos humanos. Fiorelli percebeu que se tratava de espaços deixados pelos corpos em decomposição e então desenvolveu a técnica de injetar gesso neles para recriar as formas das vítimas do Vesúvio. Essa técnica ainda é usada hoje, com uma resina transparente agora utilizada no lugar do gesso por ser mais durável e não destruir os ossos, permitindo análises posteriores.


Fiorelli também apresentou documentação científica. Ele dividiu a cidade nas atuais nove áreas (regiones) e quarteirões (insulae) e numerou as entradas de cada casa (domus). Fiorelli também publicou o primeiro periódico com relatórios de escavações. Sob seus sucessores, toda a parte oeste da cidade foi exposta.

Em 1980 houve um grande terremoto na região, o que fez parar novas escavações. Todos os estudos limitaram-se às regiões que já estavam com escavações em curso.

Em dezembro de 2018, arqueólogos descobriram restos de cavalos aproveitados na Vila dos Mistérios.

Em novembro de 2020, os restos mortais de dois homens, considerados um homem rico e seu escravo, foram encontrados em uma camada de cinzas de 2 metros de espessura. Eles pareciam ter escapado da primeira erupção, mas foram mortos por uma segunda explosão no dia seguinte. Um estudo dos ossos mostrou que o mais jovem parecia ter feito trabalho manual e, portanto, era provavelmente um escravo.

Em dezembro de 2020, um termopólio, uma pousada ou lanchonete, foi escavado no Regio V (a quinta região).  Além de afrescos de cores vivas que retratam alguns dos alimentos oferecidos, os arqueólogos encontraram oito dolia (potes de terracota) ainda contendo restos de refeições, incluindo pato, cabra, porco, peixe e caracóis. Eles também encontraram uma tigela de bronze decorada, conhecida como patera, frascos de vinho, ânforas e potes de cerâmica usados para cozinhar ensopados e sopas. Um afresco retrata um cachorro com uma coleira, possivelmente lembrando os clientes de colocarem coleira em seus animais de estimação. O esqueleto completo de um pequeno cão adulto também foi descoberto, medindo apenas cerca de 25 cm.


Em janeiro de 2021, uma grande carruagem cerimonial de quatro rodas bem preservada foi descoberta no pórtico da luxuosa vila em Civita Giuliana, ao norte de Pompeia, onde um estábulo havia sido descoberto anteriormente, em 2018. A carruagem é feita de bronze e painéis de madeira preta e vermelha, com medalhões de prata e bronze gravados na parte traseira. Agora é considerada uma carruagem nupcial elaborada e única, chamada pilentum. Em 2023 foi restaurada para exibição nas Termas de Diocleciano. Nas proximidades, foram encontrados corpos de dois fugitivos usando moldes de gesso e, num estábulo, restos de cavalos, um deles ainda com arreios.

Em 2021, um túmulo excepcional, pintado no século I d.C., de um escravo liberto, Marcus Venerius Secundio, contendo restos humanos mumificados, foi descoberto fora do portão da Porta Sarno. Sua inscrição registra que ele alcançou a custódia do Templo de Vênus e a adesão aos Augustales, sacerdotes do Culto Imperial. Além disso, organizou apresentações gregas e latinas com duração de quatro dias, a primeira evidência de eventos culturais gregos em Pompeia.

Essa é a história de Pompeia, marcada ainda por incertezas e descobertas, por achados extraordinários e inquietantes. Pompeia fala, mesmo depois de ter sido soterrada.

Pilentum

7. Referências

Beard, Mary (2008). Pompeii: The Life of a Roman Town. Profile Books. ISBN 978-1-86197-596-6.

Butterworth, Alex; Laurence, Ray (2005). Pompeii: The Living City. St. Martin's Press. ISBN 978-0-312-35585-2.

Maiuri, Amedeo (1994). "Pompeii". Scientific American.

Sigurðsson, Haraldur (2002). "Mount Vesuvius Before the Disaster". In Jashemski, Wilhelmina Mary Feemster; Meyer, Frederick Gustav (eds.). The Natural History of Pompeii. Cambridge, UK: The Press Syndicate of the University of Cambridge. pp. 29–36.

__, ___; Carey, Steven (2002). "The Eruption of Vesuvius in AD 79". In Jashemski, Wilhelmina Mary Feemster; Meyer, Frederick Gustav (eds.). The Natural History of Pompeii. Cambridge UK: The Press Syndicate of the University of Cambridge. pp. 37–64.

Zanella, E.; Gurioli, L.; Pareschi, M.T.; Lanza, R. (2007). "Influences of Urban Fabric on Pyroclastic Density Currents at Pompeii (Italy): Part II: Temperature of the Deposits and Hazard Implications" (PDF). Journal of Geophysical Research. 112 (112): B05214. Bibcode:2007JGRB..112.5214Zdoi:10.1029/2006JB004775.

 



[1]  Palavra de origem grega que quer dizer cidade dos mortos, ou seja, cemitério. Arqueólogos e historiadores chamam o cemitério de uma cidade antiga de necrópole.

[2] cidade da Campânia, a oeste de Pompeia e junto ao mar.