domingo, 1 de março de 2015

Uma análise histórica sobre a astronomia – 2ª parte - A astronomia na Grécia Antiga

Uma análise histórica sobre a astronomia – 2ª parte[1]
A astronomia na Grécia Antiga
No primeiro texto dessa série analisamos como a astronomia esteve presente naquilo que se convencionou chamar de pré-História, bem como na Mesopotâmia e Egito Antigo, consideradas as primeiras civilizações a surgir[2].
No segundo texto dessa série analisaremos a astronomia dentro da Grécia Antiga, bem como conheceremos importantes pensadores gregos que abriram campo para o desenvolvimento da astronomia. Para tanto, nos ambientaremos com a Grécia Antiga no momento em que emergem as primeiras referências astronômicas nessa civilização. Vamos começar
A filosofia como vetor para o despertar da Astronomia
O surgimento da filosofia na Grécia Antiga foi fator fundamental para o desenvolvimento da astronomia. Não que antes os gregos não olhassem com admiração para o espaço sideral. Ao contrário. Basta lembrarmos que a principal divindade da Grécia Antiga, presente em todas as cidades-Estado gregas, era uma personagem mitológica profundamente atrelada aos eventos e fatos astronômicos, seja de forma direta ou indireta. Estamos falando de Zeus.
Zeus. Considerado como a divindade suprema da Grécia Antiga, chamado de “pai dos deuses e dos homens”, simbolizava o universo da razão. Após destronar seu pai, o titã Cronos, do poder, transformou-se então no novo senhor supremo do cosmo, que governava da morada dos deuses, no cume do Monte Olimpo. Era comum Zeus assumir a forma de animais, ou de nuvem, chuva etc[3].

 Também tivemos no período anterior ao que definimos como àquele que viu o nascer da filosofia a figura de um importante e genial pensador. Vivendo em uma região que tinha como característica a possibilidade de contato entre as culturas do Mediterrâneo, fortemente influenciada pelas culturas orientais, entre elas a dos povos formadores da Mesopotâmia, Tales, da cidade de Mileto, por isso chamado Tales de Mileto (624 – 546 a.C.), buscou elaborar as primeiras teorias acerca do que seria a Terra, bem como tudo o que a cercava. A Jônia (hoje atual Turquia) era uma das regiões da Grécia Antiga a ver aparecer os estudos matemáticos com um fôlego e importância respeitáveis. Mais uma vez, influenciados pelos povos orientais.
Segundo Tales[4], a Terra era esférica (!), flutuando sobre as águas. Tales também postulou que essas esferas seriam “exalações nebulosas do material cristalino da abóboda celeste” [5].
 No entanto, até o século VII a.C., os gregos explicavam os acontecimentos a partir de mitos. Tudo o que os cercava possuía um embasamento mitológico. Assim, o trabalho do genial Tales de Mileto pouco adentrou no campo que buscava desvencilhar-se da visão mitológica para a compreensão do que realmente seria a astronomia. Foi durante o século VI a.C. que essa situação começou a mudar. Os gregos passaram a ver “as relações humanas de forma mais realista e reflexiva”[6]. Essa forma de pensar auxiliou muito no desenvolvimento daquilo que posteriormente foi chamado de filosofia na Grécia Antiga. No entanto, o grande passo foi dado no século VI a.C., através dos sofistas.
Os sofistas não formaram nenhuma escola filosófica, mas partiram de uma orientação geral. Os mais importantes princípios para os sofistas eram os seguintes: o conhecimento deve se concentrar nos problemas do homem, partir das questões humanas. Nesse ponto é muito importante enfatizar o trabalho do sofista Protágoras de Abdera, que assim disse: “o homem é a medida de todas as coisas”; partiram da ideia de relativizar as noções do que é bom, justo, moral, verdade, e para isso se utilizavam da retórica, que nada mais é do que arte de se expressar de forma convincente, apresentando argumentos concretos e plausíveis. Viviam como “professores”, divulgando aquilo que poderíamos chamar de sofismo.
Protágoras de Abdera (480 – 411 a.C.)[7].
 
   Pitágoras (571? – 490 a.C.?), famoso matemático grego, viveu esse período de maneira bastante intensa, esse momento de passagem tão importante para o desenvolvimento da humanidade. Cabe dizer, no entanto, que pouco se tem de concreto sobre a vida desse importante pensador. Nascido nas regiões da Ásia Menor, em Samos, novamente retomando a importância dos povos orientais, em especial os árabes, para o despertar da razão,  Pitágoras se lançou a divulgar ideias, no mínimo, muito inovadoras para o período. Com 18 anos de idade, Pitágoras já conhecia e dominava muitos conhecimentos matemáticos e filosóficos da época. Através dos estudos astronômicos, “afirmava que o planeta Terra esférico e suspenso no Espaço (ideia pouco conhecida na época)” [8]. Começou a dar o embasamento para o que seria chamado de teoria geocêntrica, defendendo a ideia de que o Sol e a Lua, bem como os planetas, giravam ao redor da Terra. Foi direta e profundamente influenciado por Tales de Mileto.
   Tales de Mileto, famoso pelos avanços conseguidos no campo da matemática[9].
   Outro pensador pré-socrático que se debruçou sobre as questões que envolviam a análise do universo foi Filolau de Crotona (470 – 385 a.C.). Vivendo já no século V a.C., momento de considerável efervescência cultural e científica grega[10], Filolau teria exposto em texto escrito a doutrina pitagórica,  doutrina essa que influenciou outros pensadores, como Platão (427 – 347 a.C.).
  “Pelo que se sabe, Filolau foi o primeiro pensador a atribuir movimento à Terra. Ele propôs um sistema no qual a Terra girava em torno de um fogo central, que não era o Sol e que não podia ser visto porque ficava sempre do lado oposto ao lado habitado da Terra. O fogo era considerado pelos pitagóricos o elemento mais puro. Entre o fogo central e a Terra existia um outro planeta, invisível, que Filolau chamou de antiterra. Os nove corpos celestes[11] e a antiterra, como décimo corpo celeste, se movia em órbitas circulares em torno do fogo central”[12].
    O modelo proposto por Filolau[13]. Filolau estruturou o pensamento pitagórico em uma curiosa sentença: “e todas as coisas que podemos conhecer contêm número, pois sem ele nada pode ser concebido nem conhecido”[14]. 

Graças a essas primeiras sementes plantadas pelos sofistas, bem como por pensadores como Tales de Mileto, Pitágoras, entre outros, durante o século V a.C. a Grécia Antiga viu surgir grandes pensadores, que acabaram se tornando os maiores filósofos dessa civilização, sendo tão importantes que até os dias de hoje utilizamos os mesmos no pensamento racionalista. E alguns desses homens passaram a estudar com mais ênfase o espaço! O Universo!
Não que esse despertar da razão não tenha causado problemas aos que iniciavam a possibilidade de se pensar o mundo, o universo a sua volta de outra maneira. Sócrates (470 – 399 a.C.), por exemplo, foi condenado a se matar tomando cicuta, justamente pelas ideias que começa a divulgar. Foi um grande questionador, partindo da ideia de que somente a curiosidade (o questionar) leva ao conhecimento. Era assim que Sócrates enxergava as suas ações, partindo de um conhecimento e investigação permanentes. Ou seja, não bastava apenas crer. A lógica começava a se alterar, de certa forma, mesmo que de maneira muito amadora. Agora, era necessário conhecer, entender.
Sócrates sendo obrigado a tomar cicuta[15]. O filósofo “nada escreveu, mas transmitiu os ensinamentos aos seus discípulos. Acusado de corromper a juventude e renegar os deuses, foi julgado e condenado à morte. Platão transcreveu a defesa de Sócrates diante do tribunal, criando mais um clássico da filosofia grega” [16]. 

Aristóteles e outros pensadores gregos frente às descobertas no campo da Astronomia.
O século V a.C., como falamos anteriormente, foi um divisor de águas na Grécia Antiga. Muitos avanços ocorreram. E tal situação não foi diferente para os pensadores que se propunham a entender os eventos ligados à astronomia. Enormes esforços ocorreram para conhecer o Cosmos.
Platão, considerado o melhor “aluno” de Sócrates, escreveu e fundou uma escola fixa, a Escola de Atenas, local que recebeu pensadores de toda a civilização grega, entre eles Aristóteles. Para Platão existiam noções e ideias perfeitas que dirigiam todas as coisas do universo. E essas ideias não poderiam ser atingidas para a maioria dos homens, mas deveriam ser buscadas incessantemente pelos filósofos. Para Platão, a figura perfeita que representaria o universo seria o círculo. E vimos que essa figura geométrica já havia despertado o interesse e a curiosidade de babilônios e egípcios quando esses iniciaram os estudos astronômicos.
Mas talvez um dos maiores e mais significativos ganhos ocorridos no período foi o fato de que os pensadores gregos começaram a pensar na Astronomia sem a interferência da mitologia e dos ditames religiosos. Os gregos também começavam a enxergar cada vez mais o universo formado por inúmeras esferas (cascas esféricas, lembrando, de certa forma, uma cebola cortada ao meio[17]). A casca mais externa continha as estrelas, como havia mostrado Filolau. Havia a ideia do universo como algo finito, onde não existia nada além da esfera das estrelas.
 Aluno da Escola de Atenas (um dos melhores, por sinal), Aristóteles (384 – 322 a.C.) também buscou pensar sobre o Cosmos.  Aliás, o trabalho aristotélico é vasto, abrangendo as mais diversas áreas do conhecimento: lógica, política, estética, ciências naturais e, lógico, filosofia. Aristóteles, com base nas observações que fez da natureza, partiu da ideia de que a natureza estava em constante movimento, alternando entre destruição e transformação. Para Aristóteles tudo partiu do plano concreto, do material – pensamento contrário ao de Platão, que partia do abstrato para explicar as coisas. Defendeu a ideia do modelo geocêntrico, onde a Terra estava no centro, e os corpos celestes giravam ao seu redor. E lançou um dos princípios que Galileu Galilei (1564 – 1642) demonstrou, lá no século XVI, estar errado: a ideia de que a queda de um corpo mais pesado será mais rápida do que a de um corpo mais leve[18].
Mesmo discordando de Platão quanto ao campo das abstrações, Aristóteles desenvolveu uma teoria que demonstrava enorme influência das ideias platônicas sobre a sua maneira de enxergar as coisas. Trata-se da teoria do Éter.
Para o pensador, o éter era o elemento sutil e leve que compunha o céu, chamado de mundo supralunar, do qual eram feitas as estrelas. Portanto, o mundo supralunar seriam as esferas com os planetas. O éter seria a quintessência, diferenciando-se dos outros quatro elementos conhecidos (a saber, terra, água, ar e fogo), cujos movimentos seriam retilíneos. O éter preencheria todo o espaço vazio existente no universo. Essa diferença entre os dois mundos faria com que Aristóteles fosse além em suas proposições. Partindo do que constatara, Aristóteles sentenciou que o que valia para o céu não valeria para a Terra. Logo, os fenômenos se diferenciavam.
Representação do modelo geocêntrico[19].

Antes de partirmos para a análise de outros importantes “astrônomos” gregos, vamos analisar outro princípio aristotélico, no mínimo curioso. Buscando explicar porque as coisas eram atraídas para o chão, Aristóteles formulou o que seria a teoria do lugar natural. O raciocínio era simples: por que uma pedra cai quando solta do alto? Simples! Porque seu lugar natural é no chão. Obviamente que Aristóteles estava buscando compreender uma força física que só muitos séculos depois seria descoberta: a gravidade! A seu tempo, foi a explicação que encontrou. E, talvez, não tivesse consciência de quão importante é essa força nos fenômenos astronômicos!
Para além, e conjuntamente com Aristóteles, existiram outros geniais pensadores, alguns que formularam teorias que só se provariam corretas muitos anos depois (em alguns casos, mais de 1500 anos após).
Um desses gênios gregos foi Aristarco de Samos (310 – 230 a.C.). Foi o primeiro a formular um modelo heliocêntrico para o universo (!), onde o Sol passava a ocupar o centro, sendo rodeado pela Terra, Lua e outros corpos celestes. Simplesmente genial!
Profundamente ligado à matemática, confirmando a importância dessa ciência para os mais diversos estudos, também se tornou célebre por sua tentativa pioneira em determinar os tamanhos e as distâncias da Terra até o Sol e a Lua. Não à toa, é chamado de Copérnico da época[20]. Seu papel para a astronomia é tão notável que uma das crateras da Lua recebeu o seu nome. Uma justa homenagem!
 “Suas conclusões sobre a organização do Sistema Solar, mesmo que simples, são admiradas até hoje pela coerência que apresentam. (...) Afirmou que os movimentos de todos os corpos celestes poderiam ser mais facilmente descritos caso se admitisse que todos os planetas, incluindo a Terra, giravam em torno do Sol. Esse modelo heliocêntrico do universo foi, no entanto, considerado ousado demais e seu autor chegou a ser acusado de insulto religioso. Mesmo assim, a reação contra ele não chegou a ser tão agressiva quanto a que atemorizaria, quase 2000 anos mais tarde, Copérnico, Kepler e Galileu” [21]. Interessante, não é mesmo?
A cratera Aristarco[22]. Aristarco procurou determinar a distância da Terra a Lua a partir da relação da distância da Terra ao Sol, “considerando o triângulo formado por esses três corpos celestes no início do quarto crescente”[23].
Lamentavelmente, parte dos escritos de Aristarco se perdeu, e caso não fosse outro pensador grego, Arquimedes de Siracusa (287 - 212 a.C.)[24], pouco do que elaborou o pensador de Samos teria chegado até nós. 
Outro pensador, contemporâneo a Aristarco foi o genial Erastóstenes de Cirene (276 – 194 a.C.). Assim como os demais pensadores da Grécia Antiga atuou nos mais diversos campos do conhecimento. Da gramática à astronomia, ficou conhecido por suas geniais invenções. Basta lembrarmos que chegou a medir o raio e o volume do planeta Terra.
O pensador grego “sabia que no vigésimo primeiro dia de junho aconteceria o Solstício de verão[25] na cidade de Siena, e precisamente ao meio dia o Sol brilharia direto dentro de um poço em Siena, e iluminaria seu fundo sem que nenhuma sombra se projetasse em suas paredes. Porém, em Alexandria, exatamente na mesma hora, haveria sombras sendo projetadas. 
Partindo disso, para calcular a circunferência da Terra utilizou a seguinte relação trigonométrica:
(S/C)= (θ/ 2pi), onde:
S é a distância entre Siena e Alexandria;
θ é o ângulo formado das cidades de Siena e Alexandria;
C é a circunferência da Terra;
Ou seja, a razão entre a distância das cidades (S) e a circunferência da Terra (C) é igual à razão do ângulo formado pelas cidades e o ângulo total da circunferência da Terra.
A distância entre as cidades foi obtida multiplicando o número de passos dados de Siena até Alexandria, o comprimento de cada passo tem, supostamente, o mesmo tamanho. A informação que temos é que a distância encontrada é de 5000 estádios”[26].
No século XIX foi reconstruído o mapa do mundo feito por Eratóstenes. A geografia foi uma das principais áreas de atuação do pensador grego[27].
Hiparco e o astrolábio
Encerramos a nossa viagem astronômica pela Grécia Antiga com outro genial pensador. Hiparco (190 – 120 a.C.), astrônomo grego, já vivia em uma sociedade grega muito diferente daquela onde viveram Sócrates, Platão e Aristóteles. Era a Grécia do período Helenístico, sendo conhecida pela decadência das cidades-Estado e o domínio da Macedônia e, posteriormente, de Roma sobre os gregos.
No período, a influência macedônica sobre a Grécia Antiga era enorme. O período Helenístico também ficou muito conhecido por sua cultura. Os contatos e relações da cultura grega com os diversos povos do Oriente produziram uma rica e produtiva união cultural que denominamos cultura helenística. O farol de Alexandria e a Vênus de Milo são exemplos das preciosidades construídas no período. A matemática também se desenvolveu muito durante o helenismo, com as contribuições de importantes historiadores, entre eles Arquimedes, citado há pouco. Hiparco foi resultado desse processo.
A Vênus de Milo, uma das esculturas do período Helenístico[28].
Hiparco foi o criador do astrolábio, usado para medir as alturas dos astros a partir da linha do horizonte. O equipamento foi tão importante para o desenvolvimento do campo da astronomia, que basta lembrarmos que o navegante genovês, Cristóvão Colombo (1451 – 1506), usou o equipamento para chegar ao Novo Mundo em 1492.
No famoso filme “1492 – A conquista do Paraíso”, vemos Colombo usando um astrolábio para se orientar.




[1] RAMOS, Pedro Henrique Maloso.
[2] http://respirehistoria.blogspot.com.br/2015/02/uma-analise-historica-sobre-astronomia.html
[3] Imagem extraída do sítio http://www.giantbomb.com/zeus/3005-1101/images/
[4] Imagem extraída do sítio http://www.iep.utm.edu/thales/
[6] MORAES, J. G. V. Caminhos das Civilizações – São Paulo: Atual, 1993. p.  65
[7] Imagem extraída do sítio http://aletheiamuip.com/2012/02/01/protagoras-ya-no-cree-en-los-dioses/protagoras-de-abdera/
[8] http://www.suapesquisa.com/pesquisa/pitagoras.htm
[9] Imagem extraída do sítio http://www.jornallivre.com.br/193950/biografia-de-pitagoras.html
[10] Haja visto o fato de que a cidade-Estado de Atenas vivia o “século de Péricles”, também conhecido como a “Idade de Ouro de Atenas”, ou o período Clássico da civilização grega. Houve enorme desenvolvimento da cidade de Atenas, sendo que essa polis se tornou a principal da Grécia Antiga. Os avanços atingiram os campos da Política, arquitetura, filosofia entre outros.
[11] Na época, os corpos celestes conhecidos eram o Sol, Mercúrio, Vênus, a Terra, Lua, Marte, Júpiter, Urano e Saturno.
[14] http://pt.wikipedia.org/wiki/Filolau_de_Crotona
[15] Imagem extraída do sítio http://genius.com/2695709/Martin-luther-king-jr-letter-from-birmingham-jail-harvardx/To-a-degree-academic-freedom-is-a-reality-today-because-socrates-practiced-civil-disobedience
[16] MORAES, J. G. V. Caminhos das Civilizações – São Paulo: Atual, 1993. p.  65

[17] Imagem extraída do sítio http://marciocallegaro.blogspot.com.br/2012_08_01_archive.html
[18] A seu tempo, trataremos dessa sentença física importante.
[19] Imagem extraída do sítio http://en.wikipedia.org/wiki/Geocentric_model
[20] Alusão ao genial astrônomo Nicolau Copérnico (1473 – 1543), um dos maiores nomes do Renascimento.
[22] Imagem extraída do sítio http://astronomia.forumeiros.com/t261-foto-da-lua-em-cores-em-ccd
[25] momento em que o Sol, durante seu aparente movimento na esfera celeste, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da Linha do Equador. No hemisfério norte, o Solstício de verão ocorre no dia 21 de junho (http://pt.wikipedia.org/wiki/Solst%C3%ADcio).  

Em breve, "O diário de um renascentista"!


Capítulo 4: o Oriente...

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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Uma análise histórica sobre a astronomia - 1ª parte

Uma análise histórica sobre a astronomia – 1ª parte[1]
Desde os primórdios da História humana o céu despertou olhares fascinados, seja pelas estrelas, pelo Sol, pela Lua ou pelos seres que voam. Dependente do meio natural, os hominídeos durante a chamada pré-História, e também em outros períodos históricos,  viveram e direcionaram suas ações a partir do sol e da chuva. A relação com o céu e os fenômenos que estavam atrelados a esse espaço obrigou os seres humanos a entenderem e buscarem compreender melhor o que se passava. Afinal, a água que caia das nuvens, o Sol que aparecia mais forte em um período do que em outro eram fundamentais para a prática da agricultura. Assim, conhecer melhor os astros, as estrelas, bem como o nosso satélite natural, a Lua, determinava uma sobrevivência mais tranquila e um maior domínio dos recursos naturais.
E quantas vezes não olhamos para imensidão e nos lançamos às mais diversas perguntas?

Fato é que a história da relação humana com o espaço sideral se mistura com inúmeras outras histórias. O espaço é muito mais do que a junção de galáxias, planetas, astros e estrelas. Determina eventos primordiais do nosso planeta. Os ciclos da Lua, por exemplo, são fundamentais para determinar o ciclo das marés; e esses, por sua vez, devem ser rigorosamente conhecidos e entendidos por aqueles que navegam. Os povos pré-colombianos[2] determinavam suas colheitas e plantações pela incidência solar em marcos. Se a luz do Sol estivesse em um determinado lugar era hora de plantar. Se estivesse em outro era a hora de colher. Poderíamos aqui listar um número enorme de interferências dos astros e da astronomia na vida humana.
Porta do Sol, em Tiwanaku, Bolívia. Construída por uma civilização anterior aos incas (teriam vivido na região entre os séculos IV e III a.C.), a porta estava ligada a uma série de finalidades. Em determinado dia do ano (e só neste dia), o Sol aparecia exatamente no meio da porta. Era o início de algumas festividades em homenagem ao Sol, e, acreditam os historiadores, de iniciar a colheita ou plantio de determinados gêneros agrícolas. O dia? Hoje sabemos que se trata do dia 24 de junho[3].

Vamos, em nosso primeiro texto dessa série, analisar o despertar da observação humana na compreensão dos fenômenos astrológicos. Partiremos primeiramente de uma breve análise da humanidade na pré-História e depois conheceremos as primeiras investigações astronômicas na Mesopotâmia e no Egito Antigo.
A astronomia e a pré-História
A existência dos primeiros hominídeos em nosso planeta data de 2,5 milhões de anos, quando teria surgido o primeiro ancestral direto da espécie atual, o Homo habilis. Já a história do nosso planeta é muito, muito mais antiga. Cerca de 4,5 bilhões de anos. E se fossemos analisar a história do nosso universo nos reportaríamos a um passado que se aproxima dos 14 bilhões de anos[4]. Portanto, a existência humana é algo recente, tanto na história do planeta Terra, quanto mais na história do Universo. Mas, é fato, desde que abriu os olhos e passou a adquirir a consciência do espaço onde vivia, os seres humanos começaram a tentar desvendar os mistérios de uma imensidão por vezes azul, outras tantas negra.
Para uma melhor compreensão de como somos recentes na história, foi criado um sistema de representação da história do Universo em um ano. Veja a ilustração abaixo, bem como as informações.

“Esta imagem é baseada no Calendário Cósmico de Carl Sagan, que condensa a História do Universo em 1 ano, sendo o Big Bang às 0h0m0s de dia 1 de Janeiro e o momento em que estão a ler estas palavras é às 23h59m59s do dia 31 de Dezembro
(cada dia representa cerca de 40 milhões de anos).
1 de Janeiro, 0:00 = Big Bang
1 de Janeiro, 2:30 = Formação da Radiação Cósmica de Fundo
8 de Setembro = Formação do Sol
11 de Setembro = Formação da Terra
30 de Dezembro = Extinção dos Dinossauros
31 de Dezembro, 23:39 = primeiros Hominídeos
31 de Dezembro, 23:59:30 = primeira Civilização Humana
No próximo ano, o Sol irá tornar-se numa gigante vermelha e a Galáxia de Andrômeda vai colidir com a Via Láctea em 2 de Maio.”[5]
Ponto fundamental para a compreensão dos fenômenos naturais do nosso planeta, os primeiros que passaram a observar o que ocorria acima de suas cabeças notaram períodos relativamente cíclicos, como o são o dia e noite. Com o fim da última era glacial o solo se tornava propício para a prática da agricultura. Não é nosso intuito nesse texto detalhar como surgiu a agricultura, mas fato é que a mesma só se tornou possível porque havia findado os fenômenos glaciares.
Surgia daí, em diversas partes do planeta, a necessidade em associar o plantio com os períodos corretos. Quando seria ideal para plantar? Quando ocorreriam as chuvas mais regulares? Quando as águas dos rios iriam transbordar e quando ocorriam os períodos de estiagem? Apareciam os primeiros calendários, representações ainda pouco precisas dos ciclos ocorridos em nosso planeta. Nasce, mesmo que de maneira bem amadora, os estudos associados à astronomia.
Ainda no campo das incertezas, a construção de Stonehenge atenderia provavelmente a essa necessidade em compreender os fenômenos astronômicos, além de deixar claro o fascínio que os mesmos causavam nos seres humanos.
Stonehenge, do inglês arcaico Stone: pedra, hencg: eixo[6], se trata de uma obra da Idade do Bronze, iniciada por volta de 3100 anos a.C., portanto há mais de 5000 anos, dando à astronomia o titulo da ciência mais antiga já criada! Seria “capaz de prever os equinócios e solstícios e também os nascentes e poentes do Sol da Lua. Cada pedra pesa em média 26 toneladas e a avenida principal que parte do centro do monumento aponta para o local no horizonte em que o Sol nasce no dia mais longo do verão. Nessa estrutura, algumas pedras estão alinhadas com o nascer e o pôr do Sol no início do verão e do inverno” [7].

Outra imagem de Stonehenge. Localizado na planície de Salisbury, próximo a Amesbury, no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra[8].

Muito provavelmente a construção remetia a diversos propósitos, dentre os quais os estudos astronômicos, religiosos, além de elementos ligados à astrologia. Aliás, essa relação entre astronomia e astrologia permeou e ainda permeia muito a compreensão do que ocorre no espaço sideral, como veremos adiante e em outros textos.
Portanto, as primeiras representações que fariam menção à astronomia teriam ocorrido ainda no período anterior ao que definimos como História. Mas foi a partir do surgimento das primeiras civilizações que os estudos astronômicos ganharam significativa importância.
A Mesopotâmia e o Egito Antigo: avanços no campo da astronomia
A organização desses grupos humanos possibilitou que os mesmos utilizassem parte do dia para compreender e registrar o que estavam observando. E esse exercício do registro só foi possível graças ao desenvolvimento da escrita, fenômeno ocorrido primeiramente na Mesopotâmia (4000 – 539 a.C.), também considerada a primeira civilização. Assim, com o passar dos anos e como resultado direto do desenvolvimento da agricultura, houve a especialização do trabalho nos povoados, fazendo com que a sociedade ficasse dividida em camponeses, soldados, artesãos, caçadores, escribas, os primeiros astrônomos... Com uma maior oferta de alimentos, graças a agricultura e a domesticação dos animais, tivemos um aumento populacional considerável. E para atender ao crescente aumento da população, houve a necessidade de ampliar as áreas cultivadas e desenvolver novas técnicas para aumentar a produtividade do solo. Era a especialização que levaria a construção de obras para dominar e controlar os recursos naturais.
A escrita cuneiforme surgiu há cerca de 3500 anos[9].

Os primeiros astrônomos mesopotâmicos passaram então a registrar as primeiras efemérides, os acontecimentos astronômicos. Eram eclipses lunares e solares, bem como a passagem de cometas. E tais eventos estavam diretamente associados ao campo da astrologia. Por isso, os estudos astronômicos nesse período ocupavam o campo das pseudociências. Havia uma mistura, quase que homogênea, entre astronomia e astrologia.
A civilização do Crescente Fértil existiu em grande parte devido aos rios Tigre e Eufrates. E assim como no Antigo Egito (que veremos logo a seguir), os ciclos de cheia de ambos os rios eram determinados pela ação dos astros em nosso planeta Terra. O plantio ocorria em épocas determinadas a partir da análise da incidência solar e dos ciclos da Lua. Então, conhecer quando e como ocorreriam as cheias era de suma importância.
Rio Eufrates[10]

Os astrônomos da Mesopotâmia estudaram com rigor e análise os movimentos de Mercúrio, Vênus, o Sol e a Lua. O estudo era detalhado e, segundo registros, teria ocorrido de maneira mais regular a partir de 1.900 a.C. Veja esse trecho de um texto sobre a civilização mesopotâmica: “o calendário babilônio era lunar e, por essa razão, os astrônomos estavam particularmente interessados em prever o aparecimento da Lua em quarto crescente, e se o mês teria 29 ou 30 dias. E porque sabiam que tudo isso dependia da posição relativa entre o Sol e a Lua, os astrônomos babilônios foram impelidos a abordar o movimento aparente dos astros – uma nova e gigantesca aventura na mecânica celeste.
O mais antigo registo de um eclipse total do Sol na região da Mesopotâmia reporta-se a um eclipse observado em Ugarit, 1375 a.C. que documentos posteriores identificam como tendo na verdade ocorrido em 1063 a.C”[11]. E, junto com o desenvolvimento da astronomia, houve o desenvolvimento da matemática astronômica, possibilitando o estabelecimento dos primeiros cálculos que poderiam prever eventos ocorridos além de nossas cabeças.
Um astrônomo mesopotâmico. “Das civilizações da Antiguidade Oriental os mesopotâmicos foram provavelmente os mais importantes no campo da Astronomia, não só pela quantidade mas também pela qualidade de suas observações e trabalhos astronômicos”[12].

O Egito Antigo foi outra civilização que trouxe inúmeros avanços para a astronomia. Ainda conciliando a astronomia com a astrologia, os egípcios fizeram dos céus um espaço de investigação constante. Assim, a história dessa civilização africana, bem como sua cultura e sociedade, foram diretamente determinadas pela análise astronômica, ou seja, pelo estudo dos astros, entre eles o Sol.
Vivendo em uma região árida, os egípcios tiveram que desenvolver de imediato uma profunda relação com o rio, no caso o rio Nilo. E o rio, logo de início, se mostrou, ao mesmo tempo, uma fonte de vida e de destruição. As cheias do Nilo ainda assolam muitas regiões africanas. Não são poucos os registros da fúria do Nilo. E isso não foi diferente durante a existência do Antigo Egito.
O poderoso rio Nilo[13].

Como então determinar quando o rio sofreria uma enchente? Os egípcios logo perceberam que os ciclos naturais do rio estavam intimamente ligados com a interferência dos astros. Muitos dos temporais ocorriam em uma determinada época do ano. E tal época do ano era conhecida pela posição do Sol. No verão, quando a incidência do Sol é maior, é quando ocorrem as cheias. As cheias serviam para depositar matéria orgânica no solo e, assim, torna-lo fértil.  “Sua cheia chega mais forte no Egito quando é verão, carregada de aluviões pelo vento que desce dos altos planaltos da Abissínia. A prosperidade do Egito nasce da ação conjunta do Nilo e do Sol, todos os dois elevados pelos habitantes à categoria de deuses. O rio, em cheia das mais fortes do verão, impregna os campos de uma água carregada de aluviões extremamente férteis” [14]. Como mostra esse fragmento de texto, o Sol, assim como o Nilo eram tratados pelos antigos egípcios como deuses. Mais uma vez a astronomia se funde e se confunde com a astrologia.
“Segundo Heródoto (historiador grego), ‘O Egito é um dom do Nilo’. Sem o Nilo e a cheia, o Egito seria apenas a parte oriental do Saara. O sol apressa a vazante, e o renascimento da vegetação. Uma cheia muito fraca não alimenta bem a terra; muito forte, devasta os campos - tanto uma quando outra levam à fome: sem a cheia, o sol seria devastador; sem o sol, a cheia seria inútil. O importante é que o equilíbrio (Maát) seja mantido entre os dois”[15].
Aliás, o maior deus do Antigo Egito foi o deus Sol, Rá. O deus Rá era a representação do poder e da energia do povo egípcio. E essa associação veio a partir da forte relação entre o Sol e a agricultura. E a agricultura, como vimos, foi o que possibilitou a formação e construção dessas civilizações, como foi o caso da civilização do Antigo Egito. Assim, a figura de Rá passou a ser adorada pelo povo egípcio e a fazer parte da realeza faraônica.
Rá não foi a única divindade egípcia ligada aos astros e estrelas. A figura do deus Atum remete a criação do Universo. Seria ele o pai de todos os deuses e o criador do Universo. Também aparece representado como o Sol durante o entardecer.
Rá. Observe o desenho do Sol sobre a sua cabeça.

A representação do deus Atum. Repare nos dois desenhos a presença da cruz ansata (imagem à direita), representando a regeneração e a vida eterna. A ideia do ciclo com certeza influenciou a figura do círculo, tão presente nas representações astronômicas que se perpetuaram além das duas civilizações que estudamos nesse texto.  





[1] RAMOS, Pedro Henrique Maloso.
[2] Povos pré-colombianos, como os incas e maias, são povos que habitavam a América antes da descoberta de Cristóvão Colombo (ocorrida em 1492) e a chegada dos europeus. A maioria desses povos foi exterminada pelos conquistadores europeus. 
[3] Imagem extraída do sítio http://www.mirabolivia.com/muestra_img.php?id_imgbol=233&pag=3
[4] Informação extraída do sítio http://hypescience.com/se-o-universo-tem-14-bilhoes-de-anos-porque-vemos-coisas-a-32-bilhoes-de-anos-luz/
[5] Imagem e textos extraídos do sítio http://www.astropt.org/2013/10/31/historia-do-universo-em-1-ano/
[6] Informações extraídas do sítio http://pt.wikipedia.org/wiki/Stonehenge
[7] Imagem e texto extraídos do sítio http://www.fis.unb.br/observatorio/notasdeaula/aula2.pdf (adaptado)
[8] Imagem extraída do sítio http://pt.wikipedia.org/wiki/Stonehenge#mediaviewer/File:Stonehenge_back_wide.jpg
[9] Imagem extraída do sítio http://www.infoescola.com/civilizacoes-antigas/escrita-cuneiforme/
[10] Imagem extraída do sítio http://looklex.com/e.o/euphrates.htm
[11] zapper.xitizap.com/xitizap%2026/index_files/Page360.htm
[12] www.professormario.com.br/curiosidades
[13] Imagem extraída do sítio http://www.longdin.co.uk/case-study-13.asp